O mais cosmopolita dos mineiros
- 20 de jun. de 2023
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A trajetória de vida de José Aparecido de Oliveira, figura ilustre da história brasileira

Por Babi Kristina, Ruth Daniele, Gabriel Lavoisier, Ana Clara Dias, Luísa Miranda e Matheus Cavalcanti
Em 17 de fevereiro de 1929, foi registrado, em São Sebastião do Rio Preto – à época, pequeno distrito do município de Conceição do Mato Dentro –, o nascimento de uma personalidade que mudaria, de forma significativa, os rumos da narrativa brasileira. Conhecido pela excelente comunicação, pela facilidade de fazer amizades e conseguir, por meio do diálogo, conciliar correntes opostas na política, este homem público despertou fascínio de muitos cidadãos, devido à originalidade e à sublime personalidade.
Filho da professora Araci Pedrelina de Lima Oliveira e do “coronel” Modesto Justino de Oliveira, José Aparecido foi um cidadão ativo nos meios político, social e cultural, durante quase toda a vida. Por mais de meio século, executou, com forte prestígio, diversos feitos. Dono de gigantesco currículo, é considerado um dos políticos mais relevantes do século XX em Minas Gerais.
Nesta reportagem, iremos apresentar um pouco de seu percurso profissional, que começou como jornalista e se consumou com a criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Queremos mostrar as relações entre inúmeros feitos de José Aparecido. Afinal, trata-se de boa forma de incentivar a participação da população na política, ao mostrarmos esta envolvente história de vida.

De jornalista a político
Por ser filho de professora, desde a infância, José Aparecido de Oliveira sempre percebeu a importância da educação e da cultura. Contudo, o que aflorou seu fascínio pela língua portuguesa foi a época em que estudou no Colégio Diocesano, em Ouro Preto. O professor Padre Mendes fez com que ele ganhasse grande interesse pela linguagem, o que o levou a se aprofundar e a se comunicar de forma eloquente e eficiente.
Um pouco mais velho, José Aparecido teve a oportunidade de se mudar para Belo Horizonte, lugar que abriu portas para que pudesse entrar no mundo do jornalismo. Mesmo sem diploma oficial na faculdade de comunicação, devido à facilidade de se expressar e a seu grupo de amizade, ele se tornou jornalista, ao exercer ativamente a profissão. No início da carreira, começou a trabalhar no Correio da Manhã e na rádio Inconfidência.
Entre os anos 1940 e 50, José Aparecido participou, com Zé Maria Rabelo e Euro Arantes, da fundação de um jornal de oposição, O Binômio, periódico na qual as áreas de jornalismo e política eram muito misturadas. Além disso, permanecia na rádio Inconfidência, emissora do governo. De forma natural, José começou a seguir os caminhos políticos, muito por causa do permanente exercício de cidadania que realizava.
“As pessoas que o conheciam ficavam muito admiradas com sua influência e sua capacidade de fazer amigos, sendo este o grande diferencial que norteou sua vida”, destaca Maria Cecília Aparecido, filha de José, ao complementar que, diferentemente de muitas pessoas, suas amizades eram compostas dos mais diferentes meios e correntes políticas.
A facilidade de escrever e articular fez com que fosse chamado a trabalhar com Celso Mello Azevedo, na Prefeitura de Belo Horizonte. Sua estreia oficial deu-se como um dos coordenaores da campanha de Celso a prefeito da capital, em 1954. Após a eleição vitoriosa, seria nomeado chefe de gabinete. Alguns anos depois, com a aproximação de José Magalhães Pinto, deixa o cargo e passa a desempenhar o papel de Relações Públicas do Banco Nacional do Rio de Janeiro.
Como se trata de cargo com caráter de assessoria política, por meio dele, José Aparecido se insere na União Democrática Nacional, a UDN, então sob a liderança de Magalhães Pinto. Por meio de novas articulações, José se aproxima de Jânio Quadros e participa das campanhas de Magalhães Pinto e Ney Braga, candidatos aos governos de Minas Gerais e Paraná.
Ele acompanharia de perto, aliás, todas as circunstâncias envolvidas na candidatura à presidência de Jânio. Em julho de 1960, José assume a secretaria política do Conselho Político Nacional do MPJQ (Movimento Popular Jânio Quadros), e, quando Quadros acaba eleito, é nomeado secretário particular do presidente da república.
Com a renúncia de Jânio, José Aparecido se reaproxima do governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, e se empenha em sua própria candidatura à câmara federal. Após ser eleito, com considerável número de votos, envolve-se na operação que marcaria sua trajetória política, nada menos que a CPI do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad).
Nem tudo são flores
Quanto foi eleito deputado federal, em 1962, José Aparecido tinha apenas 32 anos. Um pouco após a oficialização do seu mandato, ele saiu da câmara para se tornar secretário do interior de justiça e, depois, de agricultura do governador Magalhães Pinto. Porém, quando estava fora da câmara, viu um movimento suspeito, próximo aos militares, o que o levou a renunciar ao cargo e voltar a ser deputado, para que fossem feitas as devidas apurações das mobilizações em curso.
Criou-se, então, uma comissão para que se fizessem as investigações sobre o Ibad. Havia boatos de que grupos estavam sendo financiados pelos Estados Unidos, que tinham interesse na articulação pelo golpe militar. Passado algum tempo, infelizmente, o levante aconteceu.
Em 1964, José Aparecido foi cassado e teve os direitos políticos afastados, devido a seu envolvimento com a CPI do Ibad, e por ser candidato da oposição. Como conta Maria Cecília, o pai fora caçado, mas não chegou a sair do Brasil. Contudo, para se proteger, ficou algum tempo exilado na embaixada do México, já que a instituição, mesmo em solo brasileiro, era tida como território estrangeiro.
Após meses, ele se muda para a região de Conceição do Mato Dentro, e fica escondido em fazendas. Como tinha um grande rol de amigos, entre os quais, alguns generais e Magalhães Pinto, e não estava na luta armada, não foi tão visado na Ditadura Militar. Sua filha, inclusive, afirma que ele não foi preso ou torturado. Por isso, quando conseguiu certa tranquilidade, mobilizou o tombamento do Patrimônio Histórico do Serro e fez, judicialmente, a contestação da cassação dele, que o deixou em ascendência com uma questão jurídica, que contribuiu para sua proteção. Trata-se, inclusive, da única contestação judicial, naquele período, contra uma cassação.
Quando termina o momento mais violento da ditadura militar, José Aparecido muda-se para o Rio de Janeiro, para trabalhar na Editora Alterosa, na Editora Paz e Terra e na diretoria do Banco Nacional. Durante aquele tempo, ele se volta a ajudar os artistas e os produtores da efervescência cultural vigente no Brasil, já que, por meio do Banco Nacional, financiava projetos de livros, peças e audiovisual.
Em 1973, José casa-se com Maria Leonor Gonçalves de Oliveira e, em 1982, com o retorno de seus direitos políticos, se candidata, novamente, a deputado federal, pelo estado de Minas Gerais, o que culminou em sua eleição e na participação no processo de redemocratização do Brasil, ao lado de Tancredo Neves.

O retorno à política
Com a chegada da eleição indireta, José Aparecido ajudou a articular a candidatura de Tancredo Neves com José Sarney e a eleger tal composição de partidos. Logo após voltar a ser deputado federal, ele foi para Minas Gerais e criou a primeira Secretaria da Cultura em Minas. Também ajudou Darcy Ribeiro a criar mais uma no estado do Rio de Janeiro, o que instigou esse movimento, já que, até então, não existia uma secretaria separada apenas para a cultura.
Após o falecimento de Tancredo e a posse do Sarney, José Aparecido foi indicado a governador de Brasília, já que, para o cargo, não havia eleições diretas e o chefe administrativo era recomendado pelo presidente. Entre seus vários feitos à frente do cargo, destaca-se o tombamento da capital federal como Patrimônio Cultural da Humanidade. De acordo com Maria Cecília, ele fez a proposição à Unesco e a cidade se tornou o primeiro bem contemporâneo tombado, o que garantiu a preservação de seu plano piloto e de suas concepções originais, mesmo frente à especulação imobiliária. Ao citar Darcy Ribeiro, a filha sublinha a façanha: “José Aparecido, hoje, cravou uma lança na lua. Ele é mais doido do que eu”.
Outra medida implementada em seu governo foi instituir, após uma greve de médicos no serviço público de saúde, as terapias alternativas (fitoterapia, homeopatia e acupuntura), o que levou, até mesmo, à criação de uma faculdade voltada apenas à área.
Também com tal nova concepção foram feitos vários monumentos pioneiros, visto que José viabilizava projetos por meio da junção aparato público e iniciativa privada. Exemplos disso foram a despoluição do Lago Paranoá e a criação do Panteão da Pátria. Criou-se, também, a fundação Oscar Niemeyer, localizado na Praça dos Três Poderes, com objetivo de preservar os novos monumentos e registrar esse período da história do Brasil.
Por fim, como seu último ato, José Aparecido organizou, coordenou e esteva à frente da primeira eleição para governador de Brasília. Ele incentivou muito a transferência de títulos das pessoas, que, mesmo morando há vários anos em Brasília, ainda votavam em seus estados de origem. Ao final, ele foi o último governador da capital federal indicado pela Federação, o que transformou a cidade naquilo que sempre idealizou.
Patrono da cultura
Se houve algo muito presente na trajetória de vida de José Aparecido de Oliveira foi seu forte interesse pela cultura. O que começou, ainda no colegial, com o fascínio por textos e grandes escritores da língua portuguesa, ao longo de sua carreira, tudo se diversificou. Afinal,ele também se aproximou muito de outras vertentes (audiovisual, teatro, patrimônio histórico etc.) no período de sua cassação, quando ajudava a captação de recursos para divercos campos da cultura.
Ainda no governo de Sarney, José Aparecido assumiu o cargo de ministro, no recém-criado Ministério da Cultura, que, segundo palavras de sua filha, foi seu grande momento, já que “ele sempre defendeu que houvesse essa dissociação da educação e da cultura dentro das políticas públicas”.
Maria Cecília relembra a frase que o pai usou para defender a criação de um ministério exlusivo da cultura: “Se a educação é o corpo, a cultura é a alma. E não existe o corpo sem alma”. Mais do que tudo, ele queria que se colocasse a área cultural no orçamento, uma vez que sempre a considerou uma área identitária.
Quando foi Ministro da Cultura, José Aparecido trouxe para dentro das políticas públicas a emancipação dos movimentos culturais africanos e indígenas. Desde muito cedo, ele nutria bastantes interesses pela África e pelos povos originários. Para ele, era isso que nos fazia brasileiros. E, ao mobilizar artistas e associar esse movimento à educação, auxiliou a criação de uma área, no ministério voltada às expressões indígenas e africanas, o que valorizou não só as tradições destes povos, como sua fé, que, para ele, fazia parte de sua identidade.
Em 1992, José é indicado, pelo presidente Itamar Franco, para assumir a embaixada brasileira em Portugal. Mesmo não sendo um embaixador de carreira, ele tinha grande respeito dentro do Itamaraty. Atuou, junto ao governo português, para o reconhecimento dos diplomas dos brasileiros em Portugal, e contornou, na época, a situação dos imigrantes ilegais, com sua capacidade de articulação e convencimento, e, também, com seu vasto contato com pessoas importantes.
Naquele momento, entretanto, José Aparecido volta-se, também, para um sonho que tinha desde a década de 1960, quando fora secretário de Jânio Quadros. Ajuda a fundar a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CLPL), como forma de união entre países que tinham uma história em comum. Por isso , visita os países africanos que falavam português quando ainda era Ministro da Cultura, e, em Lisboa, consolida a CLPL.
“A Comunidade foi um projeto que ele levou da vida. Essa visão era, inclusive, estratégica e diplomática com relação ao mundo”, conta Maria Cecília. Tratava-se, para ela, de um avanço perante os outros países, já que poderia ser, também, uma condição de negociação em termos de blocos econômicos.
Contudo, por mais que, entre esses países, tivesse uma questão unitária, houve, também, um desafio a ser transposto. Afinal, a língua portuguesa foi algo imposto, por meio da colonização. Mesmo com barreiras em seu caminho, José Aparecido conseguiu contornar a dificuldade, por ser um país colonizado que propunha a união.

Homenagens
No dia 19 de outubro de 2007, em Belo Horizonte, José Aparecido de Oliveira partiu deste plano. Alguns diriam que ele estava na Terra para cumprir importante missão, e que ela foi realizada com maestria. Seja o que for, não há como negar que em, 2007, perdermos importante personalidade da história do Brasil.
Seja como jornalista, seja como político ou incentivador assíduo da cultura, a narrativa que percorre a vida de José encanta, até hoje, historiadores e jornalistas. Vivências como a dele não devem ficar perdidas junto a tantas outras. Precisam ser contadas, pis, para inspirar as novas gerações.
Não é à toa que várias homenagens surgiram ao longo destes anos. Entre eles, gostaria de mencionar a coletânea de depoimentos José de todos os amigos, lançado em 1979; o livro “O homem que cravou uma lança na Lua” (1999), de autoria do português José Alberto Braga; o biográfico José Aparecido de Oliveira – O melhor mineiro do mundo, organizado pelo jornalista Petrónio Souza Gonçalves e lançado 2017, dez anos após sua morte; Nos vinte e cinco anos da CLPL, de Lauro Barbosa da Silva Moreira e Rogério Faria Tavares, que conta com um texto em homenagem a José; e o documentário “José Aparecido de Oliveira – O melhor mineiro do mundo”, que estará disponível em breve.



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