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Os felinos do Parque Municipal de BH

  • 2 de mai. de 2023
  • 6 min de leitura

Atualizado: 18 de jun. de 2023

Breve relato sobre abandono e sobrevivência


Foto: Luísa Miranda

Por Babi Kristina, Ruth Daniele, Gabriel Lavoisier, Ana Clara Dias, Luísa Miranda e Matheus Cavalcanti


Em um dia normal, não é incomum encontrarmos várias pessoas a passear pelo Parque Municipal Américo Renné Giannetti, popularmente conhecido como Parque Municipal de Belo Horizonte. Muitos que estão ali gostam de aproveitar as horas com o que o ambiente tem de melhor a oferecer: as paisagens em meio à natureza e uma extensa área de lazer. Contudo, junto à exuberante vegetação, há seres que passam despercebidos aos olhos da maioria. Pode-se dizer, inclusive, que ali são registrados alguns dos maiores casos de abandono na capital mineira.


Afinal, é possível perceber que o patrimônio ambiental mais antigo de BH, com seus 182 mil metros quadrados, tornou-se palco do desabrigo de inúmeros gatos da região metropolitana. Os pequenos animais, totalmente dependentes dos seres humanos, tiveram que se virar para sobreviver neste novo ambiente, mesmo que, para isso, tenham que diminuir a expectativa de vida e sobreviver da ajuda dos humanos que se solidarizam com sua situação.


Com a falta de políticas públicas de castração, os felinos abandonados se multiplicaram e, hoje, há mais de 300 gatos no Parque Municipal de Belo Horizonte. Porém, por mais que tenham conseguido chegar a este número, isso não significa que não estejam à mercê da fome, das doenças e dos maus tratos dos visitantes.


Pessoas mais sensíveis, inconformadas com a invisibilidade dos gatinhos, começaram a se atentar ao problema, e resolveram dar o primeiro passo para solucionar a questão do abandono, e garantir que os animais tenham o mínimo de dignidade. Surge, assim, a Organização Não Governamental Gatinhos do Parque, que garante alimentação e tratamento aos bichinhos, além de organizar feiras de adoção, para conscientizar as pessoas em torno da causa e conseguir um lar responsável para muitos deles.


Gato laranja em meio às folhas Foto: Luísa Miranda

Refúgio na Selva de Concreto


Uma manhã ensolarada, geralmente, é o convite perfeito para uma caminhada. Muitos aproveitam a oportunidade para fazer atividades ao ar livre, sozinhos ou acompanhados. Vê-se ali, ao longo do final de semana, casais, famílias e atletas a perambular, enquanto admiram toda a extensa beleza natural do Parque Municipal de BH. Contudo, não são apenas os seres humanos que aproveitam aquele espaço. Na verdade, qualquer pessoa com olhar mais atento perceberá que, em meio à vegetação, há inúmeros gatinhos a desfrutar de um belo sábado de abril.


Sim, há felinos de todos os tamanhos e formas. Amarelos, pretos, cinzas, com manchas brancas ou rajados. Distribuídos por todo parque, repousam em gramados verdes, abaixo de bancos, em cima de fontes de água e ao pé de frondosas árvores. Hora ou outra, é possível presenciar suas brincadeiras e traquinagens. Correm um atrás do outro, caçam pequenos insetos e se divertem com as folhas caídas. Não há como ter dúvidas de que transformaram aquele lugar em seu mais novo lar.


Muitos que ali estão têm um trágico passado. Alguns foram abandonados, outros nasceram na rua e viram no Parque uma espécie de abrigo. Entretanto, independentemente da forma como ali chegaram, todos carregam um trauma em comum. Afinal, eles viram o pior lado do ser humano.


Consegue-se identificar, nos olhos de alguns, a mágoa deixada pelo homem. Boa parte foi simplesmente descartada nos momentos mais delicados. Não é atípico encontrar fêmeas prenhas, ou que caminham com seus filhotes. Com postura superprotetora, muitas delas evitam o contato com as pessoas e os escondem em meio à densa vegetação.Além da proteção natural que o local oferece, existem, no Parque, casinhas feitas de bacias, confeccionadas pela Organização Sem Fins Lucrativos S.O.S Gatinhos do Parque. Dentro desses abrigos, há jornais e vasilha de ração, e, como proteção, uma espécie de lona, que garante a segurança contra intempéries. Infelizmente, elas não são à prova de outros seres humanos, visto que algumas delas estão jogadas, reviradas e com marcas de aarias feitas por vândalos.


Na maioria das vezes, os animais não costumam interagir com as pessoas que vão ao parque. Seja porque não foram acostumados, seja porque sofreram em mãos humanas, eles preferem viver isolados dos visitantes. Alguns tentam tímida aproximação com os felinos, geralmente, em vão. No entanto, é bem comum as pessoas fotografarem os gatinhos, que, muitas vezes, encantam aqueles que por ali passam.


Anjos em meio à multidão

Outro fato que pode ser facilmente notado no Parque Municipal de Belo Horizonte é o encontro dos gatinhos com os tratadores. Todos os dias, um grupo de pessoas dedica parte de seu tempo para cuidar dos animais esquecidos no local. Na função, alternam-se funcionários do patrimônio ambiental e voluntários da ONG S.O.S Gatinhos do Parque.


À medida que os defensores percorrem o longo trajeto para alimentar todos os felinos, é possível perceber o carinho com que tratam os pequeninos seres. Também é evidente a reciprocidade do sentimento. Conforme tais pessoas avançam pelo caminho, e avisam a chegada da tão aguardada refeição, vários gatos, alguns escondidos em meio à vegetação e nas casinhas, aglomeram-se, esfregam nas pernas dos cuidadores, pedem carinhos, soltam miados e ronronam sem parar.


Com os potes cheios de ração e de uma mistura especial, feita com ração, sachê de gato e água, os animais começam a se alimentar vorazmente. Muitos deles sentiram na pele o que é passar fome, por isso, podem se desesperar ao ver oferta tão tentadora. Há quase 20 anos, belo-horizontinos se juntaram para alimentar esses felinos. Tudo começou quando senhoras, por conta própria, lhes davam arroz e salsicha. Porém, na maioria das vezes, não era o suficiente.


Os esfomeados felinos que ali se encontram têm pequenas marcações nas orelhas. Elas sinalizam se o gato em questão foi ou não castrado. Os mais velhos costumam ter furos maiores, enquanto os mais novos apresentam somente um leve rasgo. As marcas servem, também, para identificar o sexo do animal, e mostrar se é novo na região. Infelizmente, a prática de abandono ainda é recorrente. A dinâmica da castração e realizada, conjuntamente, por profissionais da ONG e da administração do parque.


Vida nova

Ao adentrar o Parque Municipal, vários caminhos se encontram numa única construção, que chama a atenção dos visitantes: o Coreto. Normalmente, as pessoas aguardariam, nos bancos que circundam o ambiente, por um concerto. Contudo, ao invés de instrumentos musicais, voluntários uniformizados com a blusa da ONG entram e saem com gaiolas, enquanto quem passeia se senta e espera. Não por música, mas por miados.


Ao lado da porta de entrada do Coreto, uma placa especifica o que acontece li. Nela, pode-se ler: “Feira de adoção”. Uma fila se forma para conhecer os bichanos. Há, também, produtos à venda, com lucros revertidos à causa dos animais, disponíveis para quem quiser ajudar.


Dentro da estrutura, várias jaulas abrigam filhotes e adultos, que descansam tranquilos ou se juntam para um cochilo em dupla. Toda a agitação do local parece não afetá-los. Cada um conta com placa de identificação, na qual se veem nome, idade e gênero.


O gatinho José dorme em sua rede, e tira suspiros de quem passa, enquanto o pequeno Lineu observa tudo, desconfiado. Todos com o mesmo objetivo: encontrar uma família. Infelizmente, muitos visitantes, assim que terminam de ver e mostrar aos filhos, saem de braços abanando. Contudo, cada adoção é uma vitória, a oportunidade para uma vida nova.

Sorridentes e solícitos, os membros da ONG cuidam da feira com carinho e atenção. Seus rostos transparecem amor pelos felinos. Os gatos que inspiraram a criação do projeto não podem participar da feira, pois, como são muito ariscos e têm outro estilo de vida, a adoção se dificulta. Lamentavelmente, sua casa já é o Parque, e eles têm independência e liberdade próprias.


A jornada continua

Na atual sociedade, não são poucas as pessoas que ainda enxergam os gatos como seres traiçoeiros, nada dignos de confiança. Por isso, viram alvo de mistificação e demonização. Muitos acabam abandonados, maltratados, esquecidos, ignorados e condenados por sua própria natureza.


Deixados à mercê na comunidade, os animais passam por inúmeras dificuldades. Todavia, muitas vezes, esquece-se que são dependentes do homem, desde o início de sua domesticação, pois não conseguem ter vida plena sem a intervenção humana. Prova disso é a expectativa de vida, que diminui drasticamente (de 20 anos para 3 anos), se eles se encontram em situação de rua, sem os cuidados de um tutor responsável.


Aos poucos, devido a diversos fatores, uma média de 350 gatos se arranjaram dentro do Parque Municipal de Belo Horizonte. Mesmo que cada um contasse com diferente jornada, seus caminhos se unem pelo descaso humano. Ao sobreviver com alimentação muito precária, o que favorece o adoecimento, os animais são cuidados por pessoas que se solidarizam com sua situação e tentam de tudo para ajudá-los. Mesmo que sejam considerados pragas, ou criaturas de mau agouro, até pelos próprios funcionários da prefeitura.


Atualmente, a ONG S.O.S Gatinhos do Parque atua na reabilitação física e psicológica dos animais. Eles alimentam os felinos, cuidam dos doentes e idosos e organizam feiras de adoções, para os que se apresentarem aptos a receber nova família. Contudo, como toda instituição sem fins lucrativos, a entidade necessita da ajuda da população local para continuar seus serviços e garantir o bem-estar dos bichinhos.


Os principais desafios enfrentados pela instituição se referem à possibilidade de conseguir renda para comprar ração e pagar as dívidas veterinárias. Por não ter apoio governamental, os integrantes da ONG arrecadam fundos apenas com rifas e doações. Além disso, há a dificuldade de conseguir adoção para o enorme número de felinos do parque, já que, na realidade, é grande o número de gatos abandonados. A organização, contudo, seguirá na luta por estes animaizinhos, sempre com a tentativa de conscientizar a população sobre a sua responsabilidade na causa.





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