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Para além das molduras

  • 2 de jun. de 2023
  • 7 min de leitura

Impressões sobre a exposição imersiva “Monet: Le Rêve”

Foto: Luísa Miranda

Por Babi Kristina, Ruth Daniele, Gabriel Lavoisier, Ana Clara Dias, Luísa Miranda e Matheus Cavalcanti


Há cerca de dois meses, enquanto rolava, insistentemente, o feed do meu Instagram, observei um anúncio com estética diferente das outras. Havia uma bela obra de arte, com cores vibrantes, que, de imediato, fisgou minha atenção. Um convite informava a mais nova exposição realizada em Belo Horizonte. Porém, por mais que me interessasse pelo mundo das expressões artísticas, apenas continuei a navegar pela rede social, imersa naquele mundo tecnológico que, cada vez mais, absorve nosso tempo.


Meu segundo contato com a exibição foi numa pequena visita ao BH Shopping. Lembro-me que estava com minha mãe, quando, ao adentrar ali, pelo estacionamento do terceiro andar, vimos uma grande estrutura quadrada, a ocupar um espaço onde antes havia apenas vagas para carros. Naquele momento, ficamos intrigadas e nos aproximamos, na tentativa de aquietarmos nossa curiosidade. Ao ver a placa da exposição, lembrei-me, instantaneamente, da propaganda da internet, que havia visto duas semanas atrás. Contudo, por maior que fosse minha vontade de conhecer melhor aquele espaço, a correria do dia a dia não permitia.


Mais alguns dias se passaram, até que, finalmente, surgiu a oportunidade de presenciar a mostra. Em um debate sobre a próxima reportagem que meu grupo de trabalho da faculdade iria fazer, um dos integrantes nos lembrou da Exposição Imersiva “Monet: Le Rêve”. Na hora, fiquei bastante animada, pois sempre tive imenso interesse pelo mundo das artes, mas, infelizmente, devido à rotina cotidiana, acabei me limitando a pesquisas online. Acredito que aquela era a chamada de que precisava para mudar esse panorama.


Portanto, nesta reportagem, compilamos as várias percepções que tivemos de tal experiencia, para convencê-lo a quebrar a rotina virtual e também se encantar com o universo da arte que só as exposições podem oferecer.


Quadro "Mulher com Sombrinha (O Passeio)" pintado por Clade Monet. Foto: Luísa Miranda

Encontro com Monet


Estava ansiosa para, finalmente, ir à exposição e conhecer mais sobre o trabalho de Oscar-Claude Monet (1840-1926). Por mais que eu tenha ouvido falar, e, até mesmo, estudado, no Ensino Médio, sobre suas belas pinturas, nunca consegui ver suas obras pessoalmente. Sempre estive limitada a uma tela de telefone. Isso sem contar que nunca havia ido numa exposição imersiva. Não imaginava o que me aguardava por trás daquelas paredes. Mas isso não me impediu de ir com a mente aberta para todas aquelas oportunidades de aprendizado que teria na próxima hora.


O que, de início, me chamou a atenção foi a entrada para o recinto. Trabalhada de forma minimalista e elegante, havia dois grandes letreiros prateados sobrepostos em um fundo preto brilhante, que indicava, do artista homenageado, o ano de nascimento (1840), de um lado, e o ano da morte (1926), do outro. Na parede ao fundo, um vídeo, em preto em branco, gravado com um Monet já idoso. Tal combinação muito bem trabalhada aguçava minha curiosidade, o que premeditou o espetáculo que se seguiria.


Ao virar e adentrar a exposição, vi uma fascinante retrospectiva das obras do renomado pintor. Por meio de cuidadosa seleção, que abrange as pinturas mais icônicas do artista, podemos perceber seu estilo e seu talento, ao capturar a luz e os efeitos atmosféricos. Imersa em um mundo de cores vibrantes e paisagens encantadoras, observei a trajetória de sua arte, e sua evolução como pintor, que, de início, retratam a vida urbana em Paris, e vai até suas belas séries de nenúfares e catedrais.


Ao observar, atentamente, as obras expostas, percebi sua distinta técnica, que enfatiza pinceladas soltas e rápidas, visando a capturar o momento e a luz em constante mudança. Destaco, também, a impressão de movimento que sua arte apresenta, o que cria uma atmosfera etérea e cativante.


Fiquei muito emocionado. Estava alegre e triste ao mesmo tempo, por ver que infelizmente hoje em dia isso não é tão preservado. É uma emoção muito grande, pois essa exposição interativa passa a sensação de estar participando da obra com o autor.

Fala de João, um professor que visitava a exposição.


Díficio vida de artista


Além das pinturas, a exposição oferece uma visão aprofundada da vida e do legado de Monet. Observei e aprendi, por meio de fotografias, cartas e materiais de arquivo, as influências que moldaram seu estilo artístico, além da oportunidade única de conhecer o papel fundamental do artista no movimento impressionista.


Enquanto lia sobre sua vida, em um mural dedicado a sua história, me arrepiei inteira ao saber que, logo no início de sua carreira, em 1858, trabalhando com Eugè Boudin, outro pintor que começara a se destacar, o jovem Monet, aos 18 anos, já havia compreendido que este era seu destino.


Primogênito de um próspero comerciante, o parisiense desenvolveu seu amor pelo desenho em tenra idade. O que começou com esboços de pessoas e caricaturas se aprofundou na arte da pintura. Incentivado pela mãe, e, posteriormente, pela tia Sofia, Claude Monet aperfeiçoou a técnica com o tempo, por meio da ajuda de vários artistas, que viraram seus amigos. Contudo, mesmo que suas obras arrancassem elogios da crítica, sua vida fora marcada por dificuldades financeiras.


Ao ler toda a história de luta e superação do pintor, percebi o quanto o mundo pode ser cruel com seus envolvidos. Mesmo que Monet tenha marcado o Movimento Impressionista, vanguarda importante para a trajetória da arte, ele teve que passar por diversas provações, que, inclusive, quase o levaram a tirar a própria vida. Acredito que, por diversas vezes, a sociedade não reconhece a importância de personalidades como ele. E, por esse motivo, temos que valorizar tais mostras, que nos ajudam a ampliar nosso olhar e a valorizar as histórias desses grandes personagens.


Mural que conta toda a história de Clade Monet. Foto: Luísa Miranda

Encantos franceses no século XIX


Outra interessante surpresa que tive, em um terceiro momento, é ver uma parte toda dedicada à imersão numa Paris do final do século XIX, início do século XX, um pouco antes da Primeira Guerra Mundial. Enormes painéis cobriam três cantos da sala, em alusão a lojas, cafeterias e livrarias da época, o que criou uma atmosfera perfeita para tirar fotos únicas e conhecer mais sobre como era a França daquela época.


Além disso, também havia pinturas estrategicamente postas em cavaletes de madeira, que, ao serem observadas na totalidade, me remetiam a uma exposição ao ar livre, como, provavelmente, aconteciam naquela época. Ao centro, um belo chafariz falso dava o charme final, o que me levava a entrar de cabeça no mundo que inspirou Monet por vários anos. Simplesmente, encantador.


Foram muitas sensações diferentes e são obras muito bonitas, faz você se sentir dentro de um quadro. Eu me senti muito bem. Foi incrível!

Fala de Ana Clara, uma estudante que visitava a exposição.


O ápice da experiência


Os primeiros 30 minutos passaram voando, e, devido a tantos detalhes incríveis para se observar e se esbaldar, nem mesmo percebi que chegara a hora do grande momento imersivo da exposição. Ao lado da réplica de Paris, observei uma parede escura, e uma pequena porta, com cortinas da mesma cor. Amigavelmente, uma guia nos avisou que a sala já estava pronta, e nos guiou até seu interior. Estava animada e ansiosa para a experiência a seguir. Afinal, era a primeira vez que via algo assim.


Entrei com um pequeno grupo de pessoas, e me aconcheguei em um dos sofás espalhados pelo recinto. A princípio, vimos um entorno todo cinza, acompanhado por fraca luminosidade. Um frio aconchegante e acolhedor envolveu-me, à medida que os minutos passavam. Depois de um instante, painéis digitais, espalhados por toda a sala, se iluminaram, o que deu vida a Monet e suas obras.


Todos os cantos ganharam projeções únicas. Até mesmo o chão fazia parte da paisagem. As personagens, como barcos e aves, se movimentavam ao som de melodias suaves e envolventes, ao som de barulhos da chuva ou do vento etc. Sentia-me dentro dos quadros de Monet. Ou melhor: eu havia entrado em sua cabeça, enquanto ele pintava. A arte estava em movimento, como um mundo à parte. Era, simplesmente, surreal!


Não contive a alegria. O sorriso não saía de meu corpo. Ao olhar em volta, observei que as pessoas que me acompanhavam também tinham semblante único. Elas se levantavam, faziam poses e fotografavam, acompanhavam as imagens e filmavam tudo.


Porém, mais interessante ainda é ver a estrutura cuidadosamente montada para nos apresentar o show de luzes e imagens. Algo que achei bem interessante é o jogo de espelho cuidadosamente postos nas pilastras, para que não atrapalhassem nossa visão. Além disso, também tiveram a cautela de duplicar as telas nas duas direções opostas, para que, assim, ninguém perdesse qualquer detalhe.


Com produção impecável, aquela foi uma grande apresentação da arte impressionista, por meio dos quadros mais famosos do Monet. Além de animar personagens e cenários de suas pinturas, também revelam importantes frases ditas pelo pintor. Dentre todas, a que mais me marcou foi: “Estou cada vez mais apaixonado pela necessidade de transmitir o que sinto.” Toda a experiência foi feita e transmitida de forma tão caprichosa que consegui me sentir próximo do artista, como se também fosse pintora.


Imagem tirada dentro da experiência imersiva da exposição. Foto: Luísa Miranda

Final agradável


Ao finalizar a exibição dos projetores, saí em uma pequena lojinha, com diversos artigos inspirados no pintor. Ao andar em meio a caderninhos, chaveiros e pequenas molduras enfeitados com suas obras mais famosas, refleti o quanto Claude Monet foi importante para o mundo artístico. Mesmo com todas as desavenças, por meio de pinceladas precisas, ele construiu obras extraordinárias, que causam impacto mesmo depois de um século.


Para mim, foi uma experiência verdadeiramente inesquecível e inspiradora. É incrível ver a importância da arte de modo tão próximo. Ela é transformadora. E nos faz refletir sobre nossa comunidade. Acima de tudo, ela tem caráter imortal. Monet permanece vivo em suas pinturas. Eu o conheci por meio desta exposição. Afinal, o que mais carrega nossa essência do que a arte que trazemos ao mundo?


Na lojinha, ao observar uma miniatura de moinho, pego-me pensando sobre o que perdemos, ao ficarmos vidrados em nossos smartphones. Uma tela de celular, computador ou, até mesmo, de TV, não consegue transmitir o íntimo de um pintor, a exemplo do que esta exposição me apresentou. Afinal, a interação é fundamental ao aprendizado. E a imersão é uma das formas mais fáceis de se colocar no mundo de um artista.


O contato com a arte faz com que a gente perceba ela de forma diferente. Normalmente quando olhamos para um quadro temos um certo sentimento, mas não necessariamente prende nossa atenção. Quando eu estava na sala onde todos os quadros do artista foram apresentados, era como se estivesse dentro dele totalmente imergida.

Fala de Camilla, uma Personal Stylist que visitava a exposição.


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