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Outro rolê com Okara

  • 20 de jun. de 2023
  • 7 min de leitura

Atualizado: 21 de jun. de 2023


Por: Giovanna Damião



Fotos cedidas de arquivo pessoal

A família é Vieira da Paz. Damião foi o nome escolhido no dia do parto, 27 de setembro de 1970. Anualmente, na data, é comemorada a vida dos irmãos Cosme e Damião, santos da igreja cristã, e, na umbanda, divindades protetoras das crianças, além de patronos dos médicos e cirurgiões. Justo a medicina haveria de torná-lo Álvaro, nome do médico que cuidou do senhor Edmundo, que veio a falecer durante a gravidez da dona Lourdes. Pois Álvaro Damião é o caçula de oito irmãos: Fatinha, Tonho, Liana, Zezé, Cid, Deco e Joana. A infância, no bairro Concórdia, em Belo Horizonte, ensinou-o muito sobre compartilhar, respeitar, obedecer e, principalmente, sobre humildade e gratidão, valores que, até hoje, carrega consigo.


Álvaro descobriu a vocação para o jornalismo logo cedo, nas brincadeiras de rua com os amigos. Ele era, sem dúvida, quem movimentava pior a bola. Ruim no futebol, resolveu narrar o divertimento das outras crianças, pois sua voz já se destacava. Dentre várias peraltices saudáveis de jovem, uma delas era trabalhar: foi carregador de compras no sacolão e, até mesmo árbitro de partidas amadoras – mas sempre ocupado em algum cargo diferente. Aos 14 anos, veio o primeiro emprego de carteira assinada. Trabalhava na Gráfica Avenida, na qual ajudava o senhor Osvaldo no dia a dia da loja. Nunca deixou de lado os estudos, até porque foi pelos corredores da Escola Estadual Hugo Pinheiro que conhecera Pollyanna, grande paixão dos tempos de jovem.  


Apesar da queda pelo esporte, iniciou curta passagem pelo Banco Nacional, aos 19 anos. Apesar de receber um salário considerável, ainda não era o que encantava seus olhos. Entre tantos dias quadrados da realidade de um banco nos anos 1990, uma certa tarde, estava prestes a não se tornar tão comum assim. A instituição recebeu a visita de ninguém mais, ninguém menos, do que Ayrton Senna. Era uma tarde de autógrafos do garoto propaganda da empresa, e, devido ao que o esportista representava para o país à época, fica claro que o alvoroço tomou conta do ambiente em questão de minutos.

Enquanto acionavam as autoridades para conter a multidão, Ayrton precisou se esconder numa sala. Seja por acaso, seja por destino, foi parar no ambiente daquele jovem sonhador. Inevitavelmente, os dois conversaram, e, durante a prosa, Álvaro se deparou com a pergunta que mudaria sua vida: “Você gosta do que faz?”. Ayrton manteve o assunto, perguntou sobre o que o impossibilitava de trabalhar com o que gostava, e percebeu a falta de confiança de Álvaro, que, talvez por timidez, achava ser impossível encontrar um espaço numa rádio de Minas Gerais. Ayrton, então, lhe disse: “piloto campeão mundial de Fórmula 1 só tem um”. E ele se garantia na profissão para que pudesse alcançar o pódio. Portanto, se Álvaro acreditava no próprio dom, diante de tantos lugares diferentes no jornalismo, seria capaz de alcançar seu objetivo. Aquele conselho foi a maior virada de chave na vida de Damião.


Depois daquele dia, nasceu fé e esperança no sonho de trabalhar com jornalismo. Em diversas ocasiões, ele esteve na porta da Rádio Capital, para tentar ingressar ali, de alguma forma. Foram incansáveis movimentações por parte de Álvaro, sem sucesso, até que, um dia, foi ouvido por Celso Martinelli, que, desconfiado, aceitou o garoto de 24 anos na redação. Aos poucos, Álvaro ganhou seu espaço, além da confiança de Martinelli. Começou a narrar, a trabalhar em eventos esportivos, e se aprofundou no universo jornalístico. Os sonhos mais distantes diziam que ele era capaz de conquistar essa realidade.  

Um desses sonhos o fez ir de maneira presencial, física, em carne osso, à casa de Willy Gonser, antes de entrar na rádio Capital, ou sequer ser funcionário do Banco Nacional. Aos 15 anos, ao seguir o instinto jornalista de investigação, ele descobriu o endereço de Willy. Por coincidência, era próximo à casa onde morava, e Álvaro se dirigiu, a pé, até seu sonho. Algumas batidas na porta e foi atendido, mas aparência nada lembrava a voz do locutor que ouvia no rádio, isso porque foi atendido pelo filho de Willy. E a intenção da visita não era muito bem explicada. A verdade é que se tratava, apenas, de um fã, ansioso para conhecer o ídolo – o que não foi possível, pois Willy viajava com a equipe do Atlético para fora do país.


Já dentro da Capital, os contatos são indispensáveis. Faz-se necessário, inclusive, no segmento do esporte, e foi por meio desses contatos que Álvaro ingressou na TV Manchete, ao conciliar, pela primeira vez, rádio e TV. Naquele ambiente, finalmente conheceu e trabalhou com Willy Gonser, o maior narrador com quem teve a chance de contracenar, e, por meio dele, descobriu que abria uma vaga de repórter na Rádio Itatiaia. O jornalista, dentro de si, se fazia cada vez mais presente, a ponto de alcançar espaços cada vez maiores.  

O reconhecimento surgiu em forma de convite. Aos 27 anos, número intrínseco à sua data de aniversário, Álvaro recebeu uma proposta para trabalhar na maior rádio de Minas. Talvez, novamente, por acaso ou destino, seus maiores ídolos de profissão fizeram o trajeto possível: Willy abriu a Álvaro o caminho das pedras, e Oswaldo Faria o recebeu e o contratou. A história de amor entre Damião e a Itatiaia iniciava-se ali, em agosto de 1997. Por meio da rádio, foram seis Copas do Mundo, três Olimpíadas, e muita história para contar. Além de uma coleção variada de colegas de trabalho, que, por vez, tornaram-se amigos, como é o caso de Mário Henrique Caixa e João Vitor Xavier.


Política e amor


Mário e João, além de amigos de profissão na rádio, são colegas de trabalho de Álvaro, também, na política, caminho que Damião trilhou a partir de 2012, quando participou, pela primeira vez, de uma eleição. Eleito vereador pela cidade de Belo Horizonte em 2016, e reeleito em 2020, acumula uma série de trabalhos sociais, principalmente voltados ao esporte, pois acredita na mudança que o exercício físico pode ter sobre um cidadão. São oito anos de trabalho social, uma forma de ajudar a cidade que o acolheu como jornalista e o tornou uma figura pública, respondendo, assim, aos inúmeros pedidos de ajuda que chegam diariamente à Itatiaia.  

Poste sem luz, rua sem asfalto, PCD sem acessibilidade... Os mais variados problemas chegam ao jornalista, na mesma velocidade em que chegam às autoridades. Durante um incêndio, pessoas discam o número da redação simultaneamente ao 192. Dessa forma, Álvaro viu ser necessário tornar-se figura política, e não só pública. Atua, principalmente, com crianças e idosos, por meio do Instituto Bacana Demais – bordão que ele carrega consigo durante partidas futebolísticas.


Ainda no universo da comunicação, Álvaro atuou novamente na televisão, com passagem pela TV Record, entre os anos de 2006 e 2007. Realizou diversas entrevistas, com as mais variadas personalidades do mundo esportivo, com o programa Rolê com Okara. Grandes figuras, como Emanoel Carneiro, Marco Antônio Bruck, Gilberto Silva e Fábio foram entrevistados dentro da Doblô plotada com o rosto de Álvaro e a logo do programa. O carro rodava por Minas Gerais em busca, episódica, de personalidades, para levá-las a uma viagem ao próprio passado. Álvaro teve a oportunidade, até mesmo, de fazer “rolês” internacionais: em passagem pela Europa, entrevistou o jogador Fred, em Lyon, na França. A esposa do jogador estava grávida à época, e Fred revelou não ter decidido o nome que daria à filha. Álvaro então, sugeriu o nome “Giovanna”, dado à filha do próprio apresentador. Fred acatou. 


Álvaro tem dois filhos. Giovanna nasceu em 1999, fruto de seu relacionamento com seu amor de escola, Pollyanna. Álvaro Damião Junior, o Juninho, nasceu logo depois, em 2001, fruto de outro relacionamento, dessa vez com Gislene, com quem chegou, até mesmo, a noivar. Álvaro somente se casou em 2011, pouco tempo depois de conhecer Thifany, com quem ficou casado por sete anos, mas seu verdadeiro amor tem nome e endereço: Amanda, provavelmente, foi quem mais “mexeu, remexeu e estremeceu” o coração do jornalista.  

Durante os anos 2000, ela o apoiou e deu suporte em vários desafios, mas a vida amorosa já tem desafios por si só, e, diferentemente da vida profissional, no amor, tais barreiras podem acarretar dores, que, por vezes, parecem físicas – já que até o peito sente a dor de coração. Kayque, fruto do relacionamento de Pollyanna e Jonathan, também é considerado um filho de sangue, que, por ser irmão de Giovanna, faz pulsar, em Álvaro, a paternidade. Hoje, todos os filhos seguem a carreira trilhada pelo pai. Estudam jornalismo e atuam na área, motivo de orgulho para ele, que prova sua busca pelo objetivo maior: inspirar pessoas, começando, assim, dentro de casa.


Em 2019, depois de frustrada tentativa de se eleger deputado federal, Álvaro resolveu voltar às telinhas com um novo projeto, o Alterosa Agora. O programa surgiu com a ideia de conversar não apenas com os fanáticos torcedores de futebol, mas, também, com todos os cidadãos de Minas Gerais. O piloto era um simples layout em uma TV de plasma, que se localizava no fundo do cenário, que continha apenas Álvaro como apresentador e o delegado de polícia Márcio Lobato, que dava opiniões sobre as reportagens.  

As pautas seriam majoritariamente policiais, contando o dia a dia do povo mineiro e um pouco das tragédias do estado. Ao longo dos anos, o cenário se reformou, e passou a também contar com o personagem “pica-pau”, que se tornou imprescindível no projeto de um programa popular. A TV Alterosa sempre foi considerada um canal aberto à opinião do público e o Alterosa Agora quis atrair a maior aclamação de participação das ruas. Hoje, são diversos quadros, que levam leveza e humor aos espectadores, para contar as mais variadas histórias. Drama, entretenimento, tudo “junto e misturado”, numa pegada só.

E o que seria mais a cara de Damião do que isso?


Com a TV – e a rádio e a carreira política –, pode parecer que Damião tenha alcançado tudo o que deseja. O mundo, porém, ainda é pouco para aquele pequeno garoto tímido e ambicioso da rua Itaquera, número 846. São diversas reuniões, sobre inúmeros projetos que aguardam o futuro de Álvaro, todos muitos promissores, se dependessem apenas de sua coragem e determinação.  

Conquistar o mundo? Quem sabe, um dia. Até aqui, contudo, aos 52 anos, tudo o que Damião fez na própria vida – e na vida de inúmeros ao redor – já é bacana demais!

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