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Precursora da transformação

  • 20 de jun. de 2023
  • 6 min de leitura

Atualizado: 13 de jul. de 2023

Duda Salabert, a deputada e ex-professora transgênero que desafia preconceitos e transforma a política e a educação no Brasil


Duda Salabert [Foto: Reprodução]

Por Henrique Alves, Juan Brito, Luís Souza, Luiz Kern e Nathália Gonçalves

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Ser uma pessoa transgênero no Brasil é enfrentar uma série de desafios e preconceitos, especialmente quando se é professora e ativista. A sociedade, muitas vezes, ainda não compreende, nem aceita plenamente, as identidades de gênero fora do binário tradicional, o que resulta em dificuldades adicionais para aqueles que escolhem trilhar esses caminhos.


A discriminação e o estigma, enraizados na sociedade brasileira, criam obstáculos significativos para as pessoas transgênero, tanto em suas carreiras quanto na busca por reconhecimento e respeito. Profissionais transgênero enfrentam desafios únicos, ao tentar encontrar emprego, progredir em suas profissões e ser aceitos em suas comunidades.


A falta de compreensão e apoio por parte de colegas, superiores, e, até mesmo, das famílias pode levar a situações de isolamento, discriminação e preconceito. É comum que pessoas trans sejam vistas apenas por sua identidade de gênero. Dessa forma, acabam estereotipadas e limitadas em suas capacidades profissionais. Tal visão estreita impede que talentos e habilidades sejam reconhecidos, o que prejudica a inclusão e perpetua a marginalização.


No entanto, apesar das adversidades, há figuras inspiradoras, que se destacam na luta pela igualdade e inclusão. Duda Salabert é uma delas, por ter encontrado sua voz e se tornado referência tanto no campo da educação quanto na militância pelos direitos trans. Sua história é um exemplo poderoso de resiliência, coragem e determinação diante das barreiras impostas pela sociedade.


Carreira política


O início da vida política de Duda se dá em 2018, quando, aos 37 anos, ela ganha destaque nacional ao se tornar a primeira pessoa transgênero a concorrer a um cargo no Senado Federal brasileiro, candidatando-se pelo estado de Minas Gerais.


Filiada ao Partido Socialismo e Liberdade (Psol), foi uma das candidatas mais votadas de Minas Gerais, ao receber cerca de 351 mil votos. Entretanto, não conseguiu se eleger. Apesar disso, a campanha trouxe visibilidade à luta pelos direitos das pessoas trans e pela inclusão da pauta LGBTQIA+ na política brasileira.


Em 2019, ao alegar que seu partido não investia suficientemente em candidatos transgênero, e que apenas usava a pauta para eleger “figuras e candidaturas já privilegiadas”, Duda anunciou sua saída do Psol, ao acusar o partido de “transfobia estrutural”. Em sequência, anunciou sua filiação ao PDT, ao participar de um evento e de uma reunião com a presença de Ciro Gomes.


Já em 2020, candidatou-se para o cargo de vereadora de Belo Horizonte. Eleita com mais de 37 mil votos, chamou a atenção da mídia, ao se tornar a vereadora mais votada da história da cidade.


Durante a candidatura, prometeu plantar uma árvore para cada voto que recebesse, e, após a vitória, registrou em suas redes sociais: “Me tornei a pessoa mais votada da história de Belo Horizonte. Prometi na campanha que cada voto que eu tivesse seria uma árvore que plantaria. Tenho, então, que plantar 37.613 novas árvores. Pelos meus cálculos, se eu plantar uma árvore por dia, eu gastaria 103 anos para pagar essa promessa”, afirmou.


Para acelerar e conseguir cumprir a promessa, em 2022, realizou um projeto, em parceria com a secretaria de educação de BH, em que mais de 10 mil mudas foram plantadas em escolas municipais.


Em 2022, abdicou da vereança e lançou candidatura a deputada federal. Ao início, sua intenção era se candidatar ao senado. Nas pesquisas de intenção de votos, estava equilibrada no páreo, porém, decidiu, estrategicamente, concorrer como deputada. Assim, garantiria maior ocupação e representatividade na câmara dos deputados. Dessa forma, se elegeu com mais de 208 mil votos.


Desde o início de sua vida política, Duda enfrenta, de modo direto, representantes conservadores de direita, que, infelizmente, se referem à deputada com ataques transfóbicos. Nikolas Ferreira, conservador evangélico de direita, eleito vereador em Belo Horizonte e hoje deputado federal, é um dos principais adversários políticos da deputada. Na Câmara de BH, ele se referia à colega com pronomes masculinos e, recentemente, perdeu um processo de danos morais, movido por Duda, por falas transfóbicas a ela direcionadas.


Outro embate que Duda tem travado como vereadora e deputada é a preservação da Serra do Curral e da Serra do Gandarela, ambas alvo da mineração. Ela destaca, em seu Instagram, que as serras são indispensáveis ao abastecimento hídrico de Belo Horizonte.


Em março de 2023, participou da Conferência da Água, na ONU, em Nova Iorque, onde apresentou os casos de Belo Horizonte e Ouro Preto, alegando que as privatizações dos sistemas de distribuição de água nas cidades afetaram o acesso de pessoas em situação abaixo da linha da pobreza ao direito básico.


Além de sua atuação política, Duda é uma voz ativa na defesa dos direitos humanos, especialmente na área da educação. Ela continua a trabalhar pela inclusão e pelo combate à discriminação e ao preconceito. Desse modo, busca promover uma sociedade mais igualitária e respeitosa.


Vale destacar, também, sua luta pelo desenvolvimento sustentável. Adepta ao veganismo desde 2012, defende uma alimentação mais saudável e consciente, livre de agrotóxicos e abuso de animais, além de lutar pela economia verde, concentrada na busca de soluções que alinhem o desenvolvimento humano à defesa e à conservação ecológica do planeta.


Carreira pedagógica


Duda Salabert foi uma renomada professora de literatura, com carreira sólida no Bernoulli, um dos principais colégios privados de Belo Horizonte. Com 18 anos de experiência no ensino, conquistou reconhecimento e respeito entre os alunos. No entanto, após iniciar seu processo de transição de gênero, passou a enfrentar desafios significativos.


A princípio, assim que passou a se reconhecer como mulher transexual, percebeu diminuição nas oportunidades de emprego. Duda acredita que isso ocorre porque as pessoas não a enxergavam mais como professora, mas, sim, como prostituta, devido aos estereótipos negativos associados às mulheres trans no Brasil. Dessa forma, lamenta o reflexo da transfobia na sociedade, afirmando que, se fosse demitida, seria difícil conseguir nova colocação em outra escola.


Apesar de os alunos terem aceitado bem a revelação de sua transexualidade, a então professora enfrentou resistência por parte de alguns pais, que não conviviam diariamente com ela. Duda relatou o caso de uma mãe que exigiu explicações ao dono da escola, ao alegar que sua filha estava tendo aula com um traficante. Salabert ressaltou que não é prostituta nem traficante, mas compreende que, para famílias tradicionais mineiras, pode ser difícil ouvir a filha dizer que a pessoa que ela mais admira é uma travesti. Apesar dos desafios, vê sua profissão como uma causa e alimenta o sonho de transformar o mundo pela educação.


Em 2021, foi demitida do cargo de professora de literatura no Colégio Bernoulli, onde trabalhava desde 2007. Segundo ela, via postagem nas redes sociais, a demissão ocorreu por preconceito, partindo da pressão de pais de alunos, que passaram a vê-la durante aulas telepresenciais durante a Pandemia de Covid-19.


Por outro lado, em nota ao jornal O Tempo, a instituição afirmou que a demissão ocorreu em função da incompatibilidade do cargo público da professora com a dedicação que a instituição esperaria dela


Ainda em 2016, Duda Salabert fundou a ONG Transvest, que oferece aulas preparatórias para o vestibular a transexuais em Belo Horizonte. A motivação para criar a organização parte da percepção de que a escola é um ambiente de violência, ódio e intolerância para as pessoas trans. Ela destaca que a maioria das transexuais não conclui o ensino médio devido às barreiras existentes. Duda critica o modelo educacional falido do país, que exclui a diversidade e não possui um plano consistente para a inclusão das pessoas trans.


Além disso, a ONG Transvest acolhe travestis em situação de rua, ao buscar proporcionar oportunidades e respeito a essas pessoas, que, muitas vezes, são marginalizadas pela sociedade.


Um dos projetos de destaque, sob coordenação de Duda, é a Ala Rosa, um espaço dentro do presídio de Joaquim de Bicas, em Minas Gerais, destinado aos detentos LGBTQIA+. Por meio da Transvest, são oferecidos apoio psicológico, jurídico, atividades artísticas e, até mesmo, serviços básicos, como facilitar a comunicação entre eles e as famílias. Duda e sua equipe de advogados, médicos e assistentes sociais visitam a prisão regularmente, fornecendo assistência e auxiliando a busca por maior inclusão e respeito.


Em suma, como professora, Duda Salabert foi uma ativista que lutou, incansavelmente, pela inclusão e pela igualdade de oportunidades na educação, especialmente para as pessoas trans. Sua carreira pedagógica no Bernoulli e sua atuação na ONG Transvest são exemplos inspiradores de seu compromisso em transformar a sociedade por meio da educação. Sua determinação e coragem para enfrentar os desafios da transfobia têm ajudado a abrir caminhos para uma educação mais inclusiva e respeitosa, construindo um futuro mais justo para todos.


Vida pessoal


Além da atuação política e do ativismo, a vida pessoal de Duda envolve diversos aspectos e experiências. É uma mulher transgênero e, ao compartilhar sua história, tem se tornado importante na luta pelos direitos e pela visibilidade das pessoas trans no Brasil. Ela enfrentou e superou muitos desafios ao longo de sua jornada pessoal, como o preconceito, a discriminação e as dificuldades dos estigmas e da falta de compreensão.

Como professora, tem dedicado a vida à educação inclusiva, ao lutar por uma escola mais acolhedora e igualitária para todos os estudantes. Seu comprometimento com a causa está profundamente enraizado à sua própria experiência como mulher trans e, também, às barreiras que enfrentou no sistema educacional.


Em resumo, Duda Salabert é uma figura notável, por suas conquistas políticas, pelo ativismo e pela dedicação à educação inclusiva. Já sua vida pessoal mantém-se reservada. Afinal, por meio de suas ações e contribuições para a sociedade é que sua influência e sua importância são mais fortemente sentidas.

Redes sociais

@duda_salabert (Instagram e TikTok)

@dudasalabert (Twitter)







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