A persistência da memória
- 2 de mai. de 2023
- 6 min de leitura
Atualizado: 18 de jun. de 2023
O Largo do Rosário e a história de pessoas pretas enterradas sob piche e concreto.

Por Amanda Alves, Anna Luiza, Giovanna Damião, Josué Jonathan, Lívia Gomes e Virgínia Pedrosa A criação de Belo Horizonte
Localizada na região central de Minas Gerais, Belo Horizonte foi fundada em 1897, e é conhecida por ser a primeira cidade modernamente planejada no Brasil. Projetada pelo arquiteto e urbanista Aarão Reis, a capital tornou-se símbolo do elogio ao progresso no final do século XIX. No entanto, a história do território ocupado pela futura metrópole não começa em sua fundação.
É sabido que a história é escrita por escolhas narrativas, respaldada em documentos e objetos, ou, ainda, em vestígios deixados pela ocupação humana, mas, ainda assim, por escolhas. Quem detém a competência de determinar, entre inúmeras possibilidades de construção da narrativa histórica, o que deve se protagonizar e o que deve se invisibilizar é, pelo menos até a decadência da modernidade, homens brancos com significativo poder econômico.
O Anuário Estatístico de Minas Gerais de 1922-1925, no entanto, aponta que a maioria da população do Curral del Rey, em 1776, era de mestiços e pretos:
“Em 1776, na Comarca do Rio das Velhas-Sabará – à qual pertencia Curral Del Rey desde 1714, quando esta ainda era denominada Comarca do Rio das Velhas —, havia 14.394 brancos e 85.182 mestiços e pretos. Em levantamento de Raul Tassini (1942), consta que, em 1872, a Freguesia do Curral Del Rey possuía uma população de 5.524 habitantes e destes 3.860 eram pretos e pardos, o que equivale a 77 (setenta e sete) por cento da população. A Freguesia, segundo recenseamento realizado neste mesmo ano, abrigava 336 pessoas escravizadas.”
Por isso, entende-se que, na história de BH, a narrativa das populações negras e indígenas foi obliterada pelos relatos oficiais. Primeiramente, por sua expulsão do território conhecido como Curral del Rey, e, depois, pelo apagamento das marcas culturais e físicas dessas populações.
Ancestralidade em concreto

Em uma encruzilhada, no meio do centro fervoroso da capital, dezenas de prédios constroem, de forma colérica, a cidade de Belo Horizonte. É bem no meio do cruzamento entre as ruas dos Guajajaras e da Bahia que fica (ou deveria ficar) o Largo do Rosário, patrimônio da história da cidade foi esquecido e soterrado sob o asfalto preto. Para os estudiosos, trata-se de uma das partes mais importantes não só da história mineira, mas de todo o Brasil.
Mas o que realmente foi tal local, destruído, sem nenhuma objeção, e hoje lembrado apenas por uma placa de metal?
Construído entre um cemitério com mais de 60 sepulturas e a igreja do Rosário, no antigo Curral del Rey, entre os anos de 1811 a 1819 , o espaço foi pensado e edificado pela Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, grupo criado pela comunidade de pessoas pretas da época. O local servia como espaço de acolhimento e alternativa àqueles que sofriam com a exclusão de cor, classe social e crença.
O Largo, no entanto, não abrigava apenas as demonstrações da fé católica, mas, também, as manifestações do sincretismo religioso, que estabelecia conexões entre o cristianismo do colonizador e a expressão dos ritos e das crenças transportadas na memória dos escravizados.
Ainda no século XIX, com a transferência da capital mineira de Ouro Preto a Belo Horizonte, todos os edifícios dentro do que hoje conhecemos como Avenida do Contorno foram demolidos, e junto a eles, o Largo do Rosário presenciou seu final material.
Uma nova igreja, de estilo Neogótico, deu lugar à antiga capela do Rosário. Entretanto, ao contrário dos cemitérios de homens brancos, exumados e transportados até o novo cemitério municipal, hoje conhecido como Cemitério do Bonfim, os corpos ali enterrados permaneceram sepultados, e, assim como o resto de sua história, ficaram presos sob as pedras que calçavam as ruas, e, mesmo após anos de progresso, permanecem, agora, presos sob o piche preto que forma o asfalto quente a preencher as ruas da capital.
A construção da nova capital não tinha como plano alojar as centenas de milhares de pessoas que viriam a trabalhar e morar na atual Belo Horizonte. Por isso, tais profissionais – em sua grande maioria, pessoas não brancas – foram obrigados a se deslocar para fora da linha demarcada como a cidade, de modo a expandir o município, por meio da criação de bairros não planejados, periferias e favelas.
Apesar da tentativa de branqueamento do passado de Minas Gerais, as comunidades da memória de povos afrodescendentes mantêm sua luta contra o esquecimento. Mesmo que de forma muito singela, elas conseguiram a instauração de um (pequeno) registro, que serve de lembrete acerca de todo sangue e suor derramado nestas terras, antes da areia, do cimento e da brita que se erguem, tão descaradamente, sob nossos olhos.
Durante 126 anos de luta, a lembrança permanece, por meio de uma fria e prateada placa de metal, instalada no lugar de construção da capela do Rosário, mantendo-se ali, esquecida, assim como a própria capela, em meio a carros, motos e a correria do dia a dia.
Em maio de 2022, houve outra pequena vitória para a história preta da cidade: o Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte registrou, em documento, o território do Largo do Rosário como patrimônio cultural imaterial da capital.
Ao longo da história de BH, o Largo foi, e ainda é, palco de eventos importantíssimos para a construção da memória da primeira cidade planejada do Brasil. Foi ali que a luta pela liberdade religiosa se iniciou, muitos anos antes do primeiro tijolo ser posto no que hoje conhecemos como Belo Horizonte. Foi lá, também, que diversos jovens resistiram ao golpe de 1964 e permaneceram na luta contra a Ditadura Militar.
Outras formas de resistência

Em termos de preservação histórica, é possível encontrar um sem número de locais com ruínas de civilizações antigas, ou mesmo atingidos por guerras e conflitos, e, hoje, vigorosamente defendidos e preservados como vestígios que permitem à humanidade presente.
É assim com as ruínas de Pompeia, aos pés do vulcão Vesúvio. Nos campos de concentração alemães, especialmente em Auschwitz. Nos templos e construções da Grécia antiga, assim como nos vestígios das cidades que compunham o império Romano.
Existe, enfim, uma tentativa de eternizar tais eventos, por meio da possibilidade de contato com o que restou de lugares tão cheios de camadas temporais. Neste sentido, vale refletir sobre a forma como o Brasil (ou, no caso do Largo do Rosário, Belo Horizonte) preservou suas ruínas?
O que permanece da construção arquitetônica do extinto Curral del Rey são vestígios da cultura e da memória da população branca que habitava este território.
Exemplo é a construção que, hoje, abriga o Museu Abílio Barreto. O casarão secular, sede da antiga Fazenda do Leitão, construído em 1883, permanece preservado e altivo, como nenhuma outra edificação erguida durante o tempo em que o Curral del Rey respirava.
É o que atesta Leonardo G. Ferreira, na publicação Museus de cidade:
“A casa da Fazenda do Leitão, uma das poucas edificações remanescentes do extinto Arraial do Curral del Rey, foi escolhida para sediar o museu, mas, na época, encontrava-se em estado de ruína. Assim, Juscelino Kubitschek solicitou ao Iphan a sua restauração e adaptação como museu. O projeto executado e elaborado pelo Iphan, buscou resgatar a estética original da casa, enquanto registro arquitetônico de um lugar, de uma época e de um estilo.”
Ou seja, ao mesmo tempo em que JK aspirava a re-modernização de Belo Horizonte, com o conjunto arquitetônico da Pampulha, ele, como prefeito da capital, entendia a importância de resguardar o passado da cidade.
Enquanto isso, a memória material dos pretos continuava apartada do contato com o presente dos moradores de Belo Horizonte. Hoje essa memória sobrevive como elemento de resistência, nos quilombos remanescentes, nas irmandades e nos festejos que tanto incomodaram o Bispo Dom Cabral, a ponto de proibir essas manifestações dentro dos limites da avenida do Contorno.
É lá onde podemos acessar toda a construção cultural e social que resiste a toda tentativa de apagamento e de destruição. Assim como o Largo do Rosário, que silenciosamente, sobrevive debaixo de camadas sucessivas de concreto, uma mordaça da memória que não se deixa abater.
Fonte: Ferreira, Leonardo Gonçalves. Museus da cidade: um estudo comparado entre o Museu de Belo Horizonte e o Museu de Amsterdã. Curitiba: Apris, 2020.
Processo Administrativo 31.00152026/2022-02. Março de 2022.
Disponível em: Acesso em 2023.




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