Refúgio da alma
- 2 de mai. de 2023
- 7 min de leitura
Atualizado: 18 de jun. de 2023
Como os idosos vivem e se adaptam ao envelhecimento ativo, no Brasil, dentro de Instituições de Longa Permanência?

Por Aléxia Corradi, Ana Clara Parreiras, Iris Aguiar, Isabella Carvalho, Luane Moreira, Marcos Prates e Rafael Alef
A velhice parece longe para quem é jovem. E a juventude parece longe para quem é velho. Como lidar com o paradigma?
Apesar da distância, segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em menos de 20 anos, a população de idosos vai representar 23,5% da população do país.
Com o país composto por maioria jovem, a noção do que é ser idoso reside apenas no imaginário. De todo modo, onde residem, de verdade, as pessoas mais velhas?
O arco-íris do Lar
Chego à rua, que, apesar de íngreme, tem bastante movimentação. Tarde de sábado, com forte sol a cobrir as árvores verdes.
Um homem alto e esbelto, de meia idade, lava seu carro com uma água azul, forte, na calçada direita. Mais abaixo, duas mulheres sentadas – com roupas coloridas – conversam no portão, com três crianças sorridentes a correr perto delas.
Continuo o trajeto e chego ao final da rua. Diferentemente de todo o resto, fico de frente a um grande portão cinza, sem cor, com muros brancos altos e intimidadores, onde a placa diz: “Lar Cristo Rei – Sociedade de São Vicente de Paulo”.
Toco o interfone, ninguém atende. No terceiro toque, uma mulher de meia idade, com um grande sorriso, abre o portão e pergunta: “Veio para o horário de visita, menina? Acabou de começar”. Confirmo e logo sou convidada a entrar.
Apesar da fachada sem cor, o lado de dentro é repleto de tons. O espaço é muito grande. Na parte da frente, há dois carros estacionados, mas com espaço para dez.
Mais ao fundo, a espaçosa casa se revela verde-claro, com uma varanda, onde já estão alguns idosos. É o lado esquerdo, porém, que chama minha atenção.
Um comprido gramado verde, muito bem cuidado, cobre todo aquele lado do espaço. Seu entorno se compõe por um lindo jardim, com diferentes espécies de plantas, de variadas cores, alguns bancos de ferro e um caminho de pedras para circulação.
A mulher que, calorosamente, me recebeu diz: “Seja bem-vinda, há muito tempo não vêm jovens aqui, fique à vontade”, e segue para a casa.
Sou tentada a segui-la, mas vou por outra rota. Ando pelo caminho de pedras do jardim verde e, ao final dele, sou recebida pela imagem de Santo no interior de uma capelinha. Naquele espaço, há internos em silêncio.
Chego perto de uma senhora, que, apesar do calor, está com uma blusa de frio rosa, com botões brancos e meias roxas nos pés. O pouco cabelo que lhe resta está preso em um rabo de cavalo. Ao me sentar ao seu lado no banco, vejo que está de olhos fechados.
Sem ter a intenção de incomodá-la, levanto-me e vou à varanda da casa, onde há outros residentes do Lar.
A varanda tem formato retangular, e os idosos estão encostados às paredes, acomodados em poltronas, sofás e cadeiras de rodas. Algumas cuidadoras e enfermeiras circulam entre os internos.
Entro no espaço e sou recebida por poucos olhares, curiosos, além de certos sorrisos tímidos.
Dou poucos passos, próximo aos idosos, e sinto algo na mão, ou melhor, alguém. A princípio, levo um pequeno susto, mas, ao me virar, vejo um homem idoso, de blusa vermelha e calça azul, com um grande sorriso.
Com poucos minutos de conversa, descubro que ele se chama João Bernardo, e tem uma filha muito parecida comigo.
João está na faixa dos 70 anos. Apesar das muitas rugas, marcas de expressão e falta de cabelo, chamam a atenção seus grandes olhos azuis; ele tem um olhar brilhante e esperançoso, como o de uma criança com a certeza de que verá seu time ser campeão mundial, e a alegria contagiante de quem acaba de receber uma notícia muito boa.
Conversamos por, no máximo, 15 minutos, mas, apesar do pouco tempo, João Bernardo me conta toda sua trajetória de vida. Ele morava no interior. Casou-se três vezes. Veio para Belo Horizonte, trabalhou em muitas obras, como pedreiro e assistente, teve quatro filhos, que lhe visitam às vezes, e, com muito pesar, diz que ama pastel frito, iguaria da qual foi privado de saborear por sua médica. A cor favorita? O azul.
Meu próximo encontro é com dona Maria Rosa, senhora bastante charmosa. Com blusa florida rosa, calça de moletom azul e um laço rosa amarrado em sua cadeira de rodas, ela sorri para mim, e seus olhos se enrugam quando me aproximo.
A enfermeira ao seu lado me diz que Rosa não consegue falar. Teve um derrame na meia-idade, mas escuta e entende perfeitamente.
Retorno meu olhar à idosa, que, apesar de não conseguir se expressar verbalmente, me transmite dezenas de palavras através de seu olhar carinhoso, enquanto outras várias são transmitidas pelo aperto de mão que me dá.
Rosa sabe se comunicar. Apenas ao olhar para ela, compreendo sua cor favorita.
Assim vive (e é) cada idoso no Lar Cristo Rei. Todos repletos de particularidades, sonhos secretos, memórias marcantes e trajetórias únicas. Cada um com uma cor especial, capaz de completar o arco-íris do asilo.
Quem protege a pessoa idosa?
A sociedade é composta por diversos grupos, por vezes, distinguidos por renda, princípios culturais, orientação sexual, idade etc. Cada uma dessas categorias merece atenção e deve ter garantidos os seus direitos.
Contudo, por que fazer um estatuto diferenciado? Simples: para que todos vivam em igualdade, é preciso que as leis proporcionem equidade.
O Estatuto do Idoso reúne toda a legislação que confere, à pessoa com mais de 60 anos, a garantia de ser um sujeito social que conseguirá acesso aos direitos humanos no país.
Por meio das leis que compõem o documento, pode-se observar que os idosos são contemplados no acesso a saúde, alimentação, transporte, educação, cultura, lazer, trabalho e habitação.
A diversão e a socialização são tão importantes para o idoso quanto para o jovem. Observo a subida, toda manhã bem cedo, de senhoras com blusas iguais, uniformizadas, a caminho da ginástica do bairro.
Sobem conversando, e me cumprimentam ao portão: “Bom dia, tudo bem?”, uma delas pergunta. “Bom dia, e com a senhora?”. Já na quadra do bairro, as conversas se intercalam aos exercícios.
Entre uma volta e outra na quadra, falam sobre os filhos, comentam dos maridos. Na outra, e na próxima, o assunto é o vizinho. Tem aquelas mais caladas, que aceleram o passo, mas, mesmo assim, adoram usufruir de seu direito.
“Não gosto de conversar. Meu passo é mais acelerado. Gosto de fazer minha caminhada sem distração”, explica Lourdes, aposentada de 84 anos.
Mesmo focada no físico, ela acha a ginástica do bairro excelente para a saúde. E, também, para passar o tempo, já que, pelas manhãs, não tem companhia em casa. “Na semana retrasada, teve uma confraternização, levei limonada”, conta.
Wagner, de 76 anos, também aposentado, não vai à ginástica do bairro. Ele gosta, mesmo, é de caminhar pelas ruas. Todo mundo o conhece. A cada rua que vira, cumprimenta alguém, pergunta dos filhos e da saúde.
No final de sua caminhada, ainda usa os aparelhos de ginástica da praça. Eegundo ele, "a gente não pode parar, tem que exercitar todo dia”. Ele, então, se agacha, só “porque nunca parei de fazer exercício".
"Essas coisas que o governo dá é um bom incentivo, mas precisa de campanhas para encorajar as pessoas. Vejo poucos idosos se exercitando na praça. Tenho falado com amigos e vizinhos para fazer", comenta Wagner.
Wagner diz, ainda, que, quando a pessoa fica mais velha, deixa de sair, não vai ao cinema, ao teatro. Até nisso, porém, o exército ajuda, pois, a seu ver, faz com que os idosos tenham mais energia para aproveitar.
Ele acredita que os direitos dos idosos são importantes, já que a renda também não é mais a mesma da época em que trabalhava.
“O salário do aposentado só diminui. Então, são bom direitos como não pagar passagem, pagar meia para ir no teatro. E, quando o idoso é ativo, podemos aproveitar”, completa.

Legenda: Infográfico Estatuto do Idoso
Tipos de residências e instituições no Brasil
Você sabe quais são os tipos de instituições para moradia e acolhimento de idosos? |
Cohousing Abreviação para collaborative house. Trata-se de um modelo de moradia em que cada idoso tem sua própria casa, dentro de um mesmo lugar, e divide espaços comuns, decisões financeiras e administrativas. Preza pela privacidade. Diferentemente dos condomínios, o cohousing tem cultura de integração, para que cada morador conheça e estabeleça convivência e cuidado com os demais. É necessária autonomia física e mental. |
República As repúblicas são casas onde diversos idosos moram juntos, dividindo os espaços e a própria residência. Tais ambientes são uma alternativa à diminuição dos custos e à convivência. Existe a divisão das tarefas domésticas e dos gastos. É necessária autonomia física e mental. |
Instituições de Longa Permanência (ILPI) Definidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como espaços coletivos de moradia para pessoas com 60 anos ou mais, podem ser governamentais ou privadas. Devem zelar pela liberdade, pela dignidade e pela cidadania de seus moradores. Incluem asilos e casas de repouso. |
A solidão que preenche os asilos
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil tem a quinta maior população de idosos do mundo, com mais de 30 milhões de pessoas com mais de 60 anos de idade.
Nosso país envelhece cada vez mais rápido, e estima-se que, em 2060, a população idosa chegará a 25%, ou seja, um em cada quatro brasileiros fará parte da terceira idade.
Com o envelhecimento da população, o número de pessoas que precisam de cuidados especiais também aumenta, e, muitas vezes, esses cuidados não podem ser prestados pelos próprios familiares.
É nesse momento que os asilos entram em cena, como alternativa de cuidados e assistência.
No entanto, a realidade vivida pelos idosos brasileiros não é tão positiva quanto se espera. A solidão que preenche os asilos é um tema preocupante e atual.
Muitos idosos que vivem nesses espaços acabam por se sentir abandonados e esquecidos pela sociedade e pela própria família.
Segundo a OMS, a solidão pode aumentar o risco de morte em 26%, além de levar a uma série de problemas de saúde mental, como depressão e ansiedade, e de problemas físicos, como falta de atividade física e desnutrição.
"Moro numa casa de dois pavimentos. Fico no andar de baixo e minha filha no de cima. É simples, mas aconchegante e sonhada. Sou feliz aqui. Construí meu lar. Já visitei asilos, eles ajudam, mas precisam ser melhorados. A falta principal do asilo é o lazer. Ali, eles precisam se divertir mais, ficar mais alegres. Saí com o coração partido", conta Wagner.
Os asilos brasileiros enfrentam muitos desafios, como falta de recursos financeiros e de profissionais capacitados a lidar com a população da terceira idade.
Além disso, muitos idosos não têm condições financeiras para arcar com os custos dos asilos e acabam abandonados.
É importante que a sociedade brasileira comece a olhar para os idosos de maneira diferente, e com mais cuidado. Eles merecem respeito e atenção, e é nosso dever, como sociedade, cuidar deles.
Os governos também precisam investir em políticas públicas que ajudem a melhorar a qualidade de vida dos mais velhos, seja por meio de incentivos financeiros, seja de programas de capacitação aos profissionais que trabalham nos asilos.




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