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Olhares itinerantes

  • 5 de jun. de 2023
  • 13 min de leitura

Atualizado: 18 de jun. de 2023

Fragmentos cotidianos a partir das janelas dos ônibus




Por Aléxia Corradi, Ana Clara Parreiras, Iris Aguiar, Isabella Carvalho, Marcos Prates e Rafael Alef


Belo Horizonte, a vibrante capital do estado de Minas Gerais, conhecida por sua rica cultura e pelas belas paisagens em contraste à selva de concreto. A constante movimentação constante da cidade e a correria cotidiana fazem passar despercebida a diversidade da cidade, assim como as pessoas que, diariamente, cruzam nosso caminho , e todo o restante que nos cerca. Ao pensar em como a rotina pode ser interessante, relatos de ônibus feitos por jovens que trabalham e estudam são capazes de revelar as experiências cotidianas de quem precisa conciliar rotina acadêmica e demandas do mercado de trabalho, em meio aos desafios do transporte público da metrópole.


A ideia, aqui, foi adentrarmos esse universo, ao explorar histórias, dificuldades e, até mesmo, aspectos positivos vivenciados pelos estudantes que transitam, dia a dia, pelos ônibus de BH. Da correria das manhãs às aglomerações nas paradas e às longas jornadas ao anoitecer, os depoimentos relatos proporcionam uma visão única sobre a realidade enfrentada por estudantes batalhadores, e mostram a força de vontade e a resiliência necessárias à superação de obstáculos e à conquista de objetivos.


Linha 30

Por Iris Aguiar

Antes de sair de casa, começo a planejar o dia, a pensar na viagem até o trabalho. A estação de ônibus é agitada, o ar vibrante e movimentado ecoa entre passageiros ansiosos.


Encontro pessoas de diferentes idades, a trajar uma variedade de roupas e a expressar uma mistura de emoções. Elas se agrupam sob a cobertura da plataforma. O som contínuo de anunciantes eletrônicos e motores de ônibus em marcha cria uma sinfonia peculiar.


Desço a rampa da estação quase correndo. São 5h48. Ainda está escuro. Pouca gente no caminho. A maioria já desce lá dentro, pois desembarca do ônibus anterior.


Chego à primeira catraca. “Ufa, a recarga da passagem caiu”. Passo apressada e atravesso a primeira plataforma. Consigo ver que a fila do meu ônibus está grande. Olho para a esquerda, não vem nenhum ônibus, então, atravesso a próxima plataforma.


Passo pela segunda catraca e, numa corrida imaginária, porém mais real que a São Silvestre, tento me apressar para chegar antes daquelas pessoas que também pegarão o mesmo ônibus que eu.


Entro na segunda fila para meu ônibus. São 05h51. O veículo sai em 1 minuto. Todos embarcam. Enquanto o tempo passa, olhares impacientes miram os relógios, e os pensamentos se misturam ao som dos passos apressados, que ecoam pelo chão de concreto.


À medida que os ônibus chegam e partem, uma sensação de expectativa e antecipação paira no ar, enquanto os passageiros se mantêm alerta, prontos para embarcar e seguir em direção aos seus destinos, unidos, momentaneamente, pelo propósito comum de uma jornada de ônibus.


Penso no tempo que tenho para chegar: “Tudo bem, a primeira fila vai sair às 5h56, a minha às 6h. Vai dar tempo de chegar. Estou em um lugar bom, perto do poste com a listra amarela”.


Ela é minha marca. Entretanto, há um saber coletivo dos passageiros da Linha 30: se perto da listra é possível ir sentada, mais distante significa que terá que ir em pé.


Poste Estação Diamante, na Linha 30: a listra amarela indica as condições de lotação do dia | Imagem: Iris Aguiar

Às vezes, a espera pelo próximo ônibus simplesmente não se revela uma opção viável. Quando há tempo escasso e compromissos urgentes, é preciso enfrentar a dura realidade de viajar em pé. A sensação de frustração é iminente, pois cada minuto parece uma eternidade, tentando encontrar um ponto de apoio em meio ao balanço constante do veículo. Sempre observo o olhar atento de quem não se sentou, à espera, ansiosa, pelo passageiro que vai se levantar e descer.


A próxima fila embarca. As pessoas pegam o ônibus verde, que não tem ar-condicionado. Fico esperta, passo para o lado. Esse é o ritual da linha: fazer três filas para esperar e passar à próxima quando os passageiros embarcam. Todos já sabem o que fazer, mas sempre tem aquele que quer ser mais esperto e pula à frente. Por isso, quando a primeira fila começa a embarcar, os olhares são apenas para ela.


O ônibus sai, olho pra trás umas duas vezes, à espera de o ônibus aparecer. Este horário na estação é silencioso, apesar de todo o barulho. As pessoas não conversam, imersas no próprio planejamento para o dia de trabalho, ou com sono demais para socializar. Na fila, reconheço pessoas que sempre estão lá.

Há a menina que estuda no Cefet e espera, na fila, com a mãe. Elas pegam o ônibus depois de mim. Ainda vejo a moça loira, baixinha, com quem embarco quando me atraso. A garota com cabelo vermelho e cacheado também espera, e conversa, às vezes, com a loira.


Reconheço a menina que é jovem aprendiz, sempre com o uniforme da Asprom, e seu All Star azul. Ela, normalmente, pega o ônibus às 6h12. O rapaz de uniforme do Materdei, às vezes, pega o ônibus antes do meu. Rotineiramente, eu o observo na fila.


O ônibus chega. Ele é azul, com ar-condicionado. A fila anda e, quando chego mais perto, vejo que ainda tem lugar lá dentro.


Entro e hoje é um dia de sorte, pois tem lugar no canto desocupado. Sento-me e espero para ver quem virá ao meu lado. Dessa vez, uma senhora que está no celular. Ela não pediu licença. A maioria pede.


As pessoas chegam, se sentam e fecham os olhos para encarar outra viagem. Paramos em quase todos os pontos para embarque de passageiros, até chegar à rotatória da David Sarnoff. Depois, paramos em quase todos os pontos para as pessoas descerem.


São 6 horas, e as portas se fecham. O ônibus arranca e vira à esquerda. A estação fica para trás.


Pela janela do lado esquerdo

Rumo ao Centro, 6h.


No meio de uma cidade movimentada, uma sensação de resignação e cansaço paira no ar. A agitação usual foi substituída pelo ar de silêncio e abandono. Ao percorrer as ruas, é possível avistar casas invadidas, com sinais da comunidade que luta pelo direito de viver.


Enquanto isso, no muro próximo, a arte urbana revela a pixação do grupo Vingadores, ícones que relembram uma época em que a esperança parecia mais palpável: nossa infância. No entanto, a memória se mistura à realidade, pois um cachorro preto brinca, despreocupadamente, com uma sacola plástica, talvez de lixo, em meio à paisagem desolada.


À medida que o dia nasce, observo as lojas fechadas, já com suas luzes acesas, numa atmosfera melancólica e solitária, em um dia que ainda não clareou.


Enquanto os carros passam pelas ruas, é possível notar passageiros entretidos com seus celulares, mergulhados em seus próprios mundos virtuais. Um sinal de trânsito se fecha e um grupo de pessoas atravessa apressadamente. Parecem estar a caminho do trabalho, na luta contra as adversidades da vida diária. Ao mesmo tempo, em sentido oposto, o homem com uma latinha de cerveja na mão, vestindo camisa branca, bermuda e chinelo, atravessa sem pressa. Parece desapegado das convenções sociais, e imerso nos pensamentos borrados pelo álcool.


Ao adentrarmos o bairro, uma cena comum: certo homem caminha com seu cachorro preto, tranquilamente, enquanto o animal fareja, curioso, um poste. Me pego a refletir sobre qual seria o trabalho do rapaz, já que tem tempo de passear com seu bichinho pela manhã. Meu pensamento, porém, logo se esvai ao olhar para frente.


Vejo a correria de outro homem, em direção ao ônibus que se aproxima do ponto, e, com uma dose de sorte, consegue embarcar a tempo.


Seguimos nosso caminho, e noto uma casa, que, apesar de estar ali todos os dias, nunca de fato havia sido enxergada por mim. Alguém ali comercializa bandejas de salgadinhos. A casa é facilmente identificada pelo colorido toldo amarelo, azul e laranja que a cobre.


Enquanto isso, no ônibus, entram outros cinco passageiros. Conforme avançamos, caminhamos para a lotação do veículo, que já sai da estação sem lugar livre para sentar.


Em meio à paisagem urbana, uma pichação, com a inscrição "Somaisum", me chamou a atenção. Eu já a vi em tantos lugares, mas não sei o que é. Penso nas possibilidades: “Será essa a última? Ela se refere à morte de alguém invisibilizado?"


Voltamos à avenida, e mais oito ou nove pessoas entram a bordo, contribuindo para a agitação dentro do veículo. Muitas pessoas são forçadas a se agarrar aos corrimãos e a se equilibrar da melhor forma possível, enquanto o ônibus acelera e faz curvas bruscas. Os corpos se chocam uns contra os outros, as mãos se apertam nos corrimãos com firmeza, os pés tentam encontrar uma base estável no chão que balança.


No meio dessa movimentação, alguém pede ao motorista: "Libera, por favor”, para que a roleta seja destravada. Outro passageiro, simplesmente, pula a roleta, e, no meio das pessoas, passa despercebido.


Tais acontecimentos singulares nos proporcionam uma visão vívida da vida cotidiana observada por meio da linha 30. Lá fora, pessoas caminham repletas de bolsas, rumo ao trabalho; outras fazem caminhada. Consigo ver o 30 que faz o caminho de volta (mas, para muitos, de ida). Ele está cheio, algo incomum para o horário.


Ao observar o caminho como nunca antes, percebo lugares nas quais minha vista nunca se fixou: um ferro velho, que se parece bastante com aqueles dos filmes, se chama “Mineirão peças”. Logo à frente, um topa-tudo. Há muito tempo, não via um.


Pelo horário, tudo ainda está fechado. Na porta do INSS, pessoas esperam. Agora, quando as pessoas entram, já não consigo contar. Está muito cheio, mas estamos perto da rotatória, o ponto de mudança. A partir desse momento do caminho, os passageiros começam a descer.


Antes da rotatória, numa paisagem industrial, vejo as três abelhinhas a voar no muro de concreto. A única cor na paisagem cinza. Homens atravessam correndo, arriscam a própria vida para chegar do outro lado.


Já o ônibus não para, não tem medo. Entra na rotatória e enfrenta os carros que nela estão. No próximo ponto, as pessoas começam a descer. Debaixo do viaduto, há carros estacionados. Parado, ao lado de um dos carros, um homem segura uma bolsa em cima do porta-malas.


Agora, já na avenida Amazonas, onde o trânsito pesado domina a cena, com caminhões, ônibus e uma infinidade de carros a ocupar as pistas, avisto o Ceresp, presença imponente, que me faz pensar em quem está detido no local.


No percurso, vê-se, aberta, a Igreja Deus é Amor, convidando para que os fiéis adentrem suas portas. De repente, o despertador de alguém começa a tocar. São 06h31. A essa altura, estamos próximos do Cefet II.


O ônibus para, brevemente, enquanto uma pessoa desce, mas o alarme continua a tocar, e preenche o ambiente com seu som incômodo. Escuto uma buzina, e especulo se foi uma resposta a algum fechamento de trânsito. O alarme persiste, causando um desconforto silencioso entre os passageiros. Alguém sussurra algo, inaudível.


O ônibus 2104 passa ao nosso lado. Essa linha sempre cruza com o 30 de manhã. Novamente, o veículo para, outra pessoa desce, e já estamos perto do Colégio Tiradentes. O relógio marca 6h35. No trânsito, observo um carro com adesivo da loja Roma, e lembro que um amigo já trabalhou lá. O alarme continua a tocar, mas seu som já não faz mais sentido, tornando-se apenas uma parte indesejada da paisagem sonora.


A visão do Expominas e do Circo em Portugal preenche meus pensamentos e desperta curiosidade sobre o tempo em que a trupe ainda ficará aqui. Sempre me esqueço de olhar. Enquanto isso, outro ônibus da linha 30 retorna, desta vez, vazio.


Finalmente, o alarme para. São 6h38, e me pergunto se ele foi desligado ou simplesmente parou depois de um tempo.


Outro ônibus da linha 30 volta, também vazio. Passamos pela Funed e pela linha de trem, e avistamos a Tereza Cristina e o rio Arrudas, lá embaixo.


Perto do Cefet novamente, paramos, e outras pessoas descem aqui. Tem um hotel em frente ao campus, algo que descobri recentemente, pois nunca havia nele reparado, apesar de morar na cidade durante a minha vida inteira.


Alunos atravessam a rua, suas expressões não são de felicidade, mas não poderia afirmar com certeza, já que adolescentes são sempre uma incógnita. O Sol está do lado oposto, vindo em minha direção, mas gosto desse contraste, e dos raios no meu rosto, especialmente num dia frio como hoje.


O veículo já tem lugares vazios. Avisto a loja Barroca Interiores, e, após uma subida, será minha última descida. No topo da subida, posso ver a faixa “Silk em geral” e a imagem de uma abelha na fachada. O relógio marca 6h46, e percebo que o trajeto demora um pouco mais hoje.


Começo a pensar na descida e entendo que, nessa hora, minha mente já pensa no trabalho. Toda a distração e as paisagens do caminho ficam para trás, e o cérebro começa a funcionar.


Já vi o rosto da águia, o que significa que, em breve, avistaremos a faculdade vermelha, cujo nome não me recordo no momento, mas vou verificar. “Unincor”, esta é a instituição onde um porteiro está do lado de fora. A descida está chegando ao fim. Paramos novamente, e outras pessoas descem.


Logo será o meu ponto, e me preparo para levantar, pois estamos prestes a atravessar a Francisco Sá. Ali, também desce muita gente. Quando o ônibus para no sinal da Avenida do Contorno, já tem muita gente em pé para descer.


Não preciso dar o sinal, porque alguém já o fez. São 6h51, estou na porta e vejo que a menina que estuda na UFMG está ao meu lado. Desço. São 6h52.


Neste complexo cenário urbano, os elementos se misturam, e revelam um retrato fragmentado de uma comunidade em transição, e em movimento, através da janela da linha 30. Pessoas apressadas ou descompromissadas, pichação nos muros, cachorro a brincar com lixo, lojas fechadas, passageiros absorvidos em seus celulares.


Eis a paisagem urbana, tão rica de contrastes e histórias não contadas.


Linha 8203

Por Aléxia Corradi

Ao voltar da faculdade numa sexta-feira, pego meu primeiro ônibus da noite, que me levará ao centro da cidade. Só consigo pensar no quanto queria que o trajeto fosse menor, e invejo as pessoas que também entram no transporte público , mas, muito provavelmente, descerão perto de suas casas, bem antes de mim.


De tão absorta nesses pensamentos, não reparo em quantas pessoas entraram junto a mim, mas sei que não são muitos os alunos que pegam o ônibus nesse horário. E logo o motorista já dá a partida outra vez.


Estou sentada no banco mais alto do lado direito. Acho engraçado como sempre me sento nesse lugar durante a volta, mas, na ida, não penso duas vezes antes de me direcionar ao lado esquerdo. É automático.


Alguns pontos à frente, outras pessoas entram. Um grupo de homens uniformizados volta do trabalho, e, como de praxe, às sextas-feiras, um deles está com uma lata de cerveja na mão. Ele se senta sozinho, dois bancos à minha frente, do lado esquerdo, e o restante do grupo se espalha no fundo do ônibus.


O trajeto é longo, e passamos por dentro de muitos bairros. Algumas pessoas descem pelo caminho, e confiro, no celular, se ainda falta muito para eu também descer (mesmo já sabendo que sim).


Numa rua mais movimentada, com diversos bares abertos, entra um casal, que se senta no banco à minha frente. A conversa dos dois é animada, e eles sorriem o tempo todo. A moça, com o cabelo raspado, recebe elogios do rapaz: “Seu corte ficou muito bom”. Ele passa a mão para sentir os fios curtos e recém-cortados, e continua a sorrir. Ela diz que gostou muito do resultado, e é um alívio se livrar dos fios longos. Os dois dão as mãos e paro de prestar atenção, sentindo que já os observei demais.


Do lado de fora, observo os bares pelos quais passamos, onde grupos de jovens, que devem ter a mesma idade que eu, estão reunidos, e dão início ao fim de semana. Está frio e só consigo pensar no quanto odeio ficar ao ar livre nessa época do ano, mas a maioria das pessoas não se importa, e as calçadas dos bares estão sempre lotadas.


Alguns metros à frente, o ônibus vira em uma esquina, e vejo, dentro de um restaurante, casais dançando abraçados, algo completamente diferente do que vi nos bares anteriores. Entretanto, a velocidade em que estamos não me permite reparar muito mais, e logo preencho a mente com outros pensamentos.


São 21h38, e, agora, estamos na Avenida Amazonas, quase esquina com a Contorno. O ônibus pára para que mais pessoas possam entrar. O que me chama a atenção, porém, se revela do lado de fora: estamos ao lado de uma alfaiataria, e, na calçada, três gatinhos brincam uns com os outros. Quando o ônibus volta a andar, torço para que tenham onde se proteger do frio.


Mais à frente, ainda na Amazonas, mas, agora, esquina com a Barbacena, paramos diante do semáforo, e, ali ao lado, há uma praça, onde um casal anda de patins. O rapaz vai até a borda da calça e pega impulso na direção da moça, que o filma com o celular, enquanto ele tenta uma manobra em cima de um banco. Não dá certo nessa tentativa. Ele se desequilibra, quase cai, mas consegue se apoiar no banco e se manter de pé. É só o que consigo acompanhar antes do semáforo verde.


Às 21h56, entramos, finalmente, na rua São Paulo. Mais alguns pontos e poderei descer, e seguir ao meu segundo ônibus. Antes de chegar lá, ainda consigo fazer a última observação: dois rapazes tiram fotos de uma pichação que diz: “Galo ganhou”. Eu rio baixinho, automaticamente, ouvindo a voz do jogador Guga em minha cabeça.


A ansiedade começa a me preencher, à medida que o ônibus se aproxima do meu ponto. Andar pelo Centro, sozinha, às dez da noite, é sempre imprevisível, mas, estranhamente, sinto-me mais segura nesse horário, quando o movimento está baixo, do que durante o dia, quando centenas de pessoas cruzam meu caminho.


Ao descer do ônibus, ainda na rua São Paulo, sigo em direção ao próximo ponto, na rua Caetés.

Linha 3055

Por Ana Clara Parreiras


São 12h48. Corro. Passo por um homem de meia-idade, que torce por mim: “vai menina, vai dar tempo!”. E, realmente, dá. Às 12h49, entro, sem fôlego, dentro do meu ônibus vazio, que sai da Estação Barreiro a caminho da Savassi.


Me preparo para atravessar a cidade. Busco um lugar para me sentar, recupero o fôlego, ajusto meus fones de ouvido e dou play na música. No mesmo ritmo em que o motorista liga o ônibus, libera a catraca de passagem e começa outra rota no 3055, às 12h50, numa sexta-feira comum.


A música começa a tocar, e as rodas do ônibus, a girar. A rota inicia passando pela avenida Sinfrônio Brochado, e segue pela avenida Olinto Meireles, parando em outros sete pontos. O ônibus logo começa a ser ocupado por um grupo de estudantes com uniformes do colégio Santa Rita, quatro senhoras, um casal de adolescentes, um homem de meia-idade e duas mulheres.


À medida que o ônibus para, também paro minha música no fone. Apesar do silêncio dentro do veículo, a vida do outro lado da janela está agitada.


A rota chega à rua Caetano Pirri, onde há um sacolão movimentado. Várias pessoas fazem compras, ao som de um locutor que diz: “Sexta-feira maluca, banana prata por 1,69 a unidade. Não perca!”.


O ônibus segue pela longa avenida Waldyr Soeiro Emrich, que está com muitos carros, motos e ônibus. Conto sete pontos nesse trecho, o ônibus para cinco. Duas vezes, para descer passageiro; três, para entrar outros tantos.


Os pontos estão vazios, há poucas pessoas. Seguimos pelo Anel Rodoviário Celso Mello Azevedo, agradeço pelo trânsito tranquilo (como a música ‘Estado de Poesia’ do Chico César, que começa a tocar no meu fone).


O ônibus segue pela BR-356, e praticamente todas as pessoas descem no ponto do BH Shopping. Do lado de fora, há gente de todas as idades e estilos.


Duas mulheres de meia-idade, saia longa e uma mala de viagem à frente conversam tranquilamente. O jovem todo de preto, com blusa de frio e touca, apesar do sol, se senta e mexe no celular. Uma mulher na faixa dos 40 anos está parada, com uma sacola na cabeça, olhando para frente.


Há, também, muitas pessoas indo e voltando, entrando e saindo de outros ônibus, que também compõem o cenário do principal ponto da linha 3055, a partir do Barreiro.


O ônibus dá partida. Ligo meu som novamente. A rota segue pela avenida Nossa Senhora do Carmo. Paramos ao sinal vermelho. Olho para o lado e vejo um homem de meia-idade, sentado na parte de trás de um carro velho, com a porta aberta e as pernas para fora. Fuma uma pedra de crack. Olho pra ele. Ele me vê. E entra para dentro do carro. Faço o que posso, rezo e torço para que ele se livre logo das drogas.


Logo depois, dou pause na música, tiro meus fones, desço na avenida Afonso Pena e sigo em direção ao meu estágio, na Getúlio Vargas.


Durante todo o trajeto, vejo pessoas de todas as idades e todos os estilos. Alguns vivem um dia extraordinário, outros, apenas mais um dia ordinário; outros tantos, um péssimo dia. Cada um vive sua vida, segue, seguindo, sua rota, e a fazer sua trilha sonora. Algumas mais animadas; outras, calmas, mas todas importantes de sua forma.



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