Vida de porteiro
- 12 de jun. de 2023
- 8 min de leitura
Atualizado: 18 de jun. de 2023
Histórias (e mais histórias) de quem tanto ouve histórias e mais histórias!

Por Anna Luiza, Amanda Alves, Giovanna Damião, Josué Jonathan, Lívia Gomes, e Virgínia Pedrosa
Sabe aquela sensação de olhar janelas e se sentir pequenininho? Ao observar o que cada um faz, naquelas frações de espaço, você costuma refletir sobre a realidade de cada vida ali dentro... Pois é, existe uma profissão que acompanha tais janelinhas e muito diz sobre as próprias experiências. O porteiro, afinal, tem a ilustre função de cuidar da segurança dos seres guardados naqueles ambientes, receber entregas, filtrar visitas, e, por tais funções, criar certa intimidade com os moradores. Já imaginou quantas histórias tal profissional pode contar? Com certeza, inúmeras! Durante duas semanas, entrevistamos – e espiamos – zeladores de diferentes cenários. Resultado? Entre janela adentro, para, junto a nós, desvendar vidas – e sonhos e tempos e dores – vastas.
O imponente condomínio Salerno fica ali, bem no meio do baixo Centro de Belo Horizonte. Construído em 1956, o prédio conta com mais de 40 apartamentos, divididos em 12 andares. No edifício que assistiu a um pedaço da história da capital, existem seis funcionários, que cuidam não só das instalações, como, também, dos moradores.
Lair de Carvalho Silveira, de 64 anos, é um dos quatro porteiros que se revezam, em escala 12x36 horas. O homem magro, de cabelos brancos e óculos quadrados, está sempre de bom humor, e com sorriso largo: “Bom dia, menina bonita!”, ele grita quando, ao me ver.
Osvaldo dos Santos, de 56 anos, já é um pouco mais recluso, apesar de tão simpático quanto o colega. Pardo e um pouco careca, está sempre de blusa de frio, e cumprimenta os moradores fazendo o sinal de positivo com os dedos.
Paulo Nascimento Zimmerman tem 70 anos. Policial militar aposentado, veio de Santa Catarina a Belo Horizonte para acompanhar a esposa, que cuida do pai acamado. “Senhor Paulo”, ou “Seu Paulo”, como é chamado, tem olhos claros e cerca de 1m85. Meio “carrancudo”, ele se revela, entre todos os funcionários do prédio, o menos sorridente.
Athos Iannou, de 51 anos, é filho de imigrantes gregos, e, além de cuidar da portaria, durante a madrugada, também atua como chaveiro, bombeiro hidráulico e dedetizador do prédio. Homem gordo, careca e com barba grisalha e cheia, usa óculos redondos e não diz uma palavra.
Maria Aparecida Teixeira tem 53 anos e trabalha como auxiliar de limpeza do prédio. A mulher parda, de sorriso acanhado e sotaque do Nordeste do país, tem cabelos pretos e olhos profundos. Está sempre de bom humor e adora contar causos sobre seus filhos e netos.
O condomínio Salerno fica à rua dos Caetés, na altura da esquina com a avenida Olegário Maciel. Cinza e de arquitetura exótica, o prédio não chama a atenção das milhares de pessoas que, todos os dias, passam próximo a ele. Na época em que foi construído, seria considerado um prédio de luxo. O portão principal é feito de ferro, com cor de ouro velho e arquitetura Art Déco. No hall, um lustre médio e bonito reflete a luz em um dos espelhos com molduras douradas, que combinam com o portão.
Os dois elevadores têm apenas uma pequena diferença: as placas “serviço” e “social” – mesmo que, hoje em dia, o importante é que estejam funcionando bem. Os apartamentos contam com janelas amplas e um belo piso de madeira. O teto de gesso traz pequenos desenhos e detalhes, que revelam o clima saudosista de uma época muito distante. Os moradores do residencial são diversos, de jovens animados a crianças que brincam de esconder nos corredores. Existem, também, as famílias tradicionais e as não tão tradicionais, como a minha.
Moradora deste prédio comum há dois anos, vi e ouvi diversas histórias, mas acredito que nada se compare à vivência de quem está aqui há muito tempo, todos os dias, faça chuva ou faça sol.
Lair e Osvaldo são os porteiros do dia. Eles chegam, religiosamente, às seis da manhã, sobem à sala dos funcionários e, lá, preparam o café. O quarto pequeno tem um fogão branco, uma mesa com duas cadeiras e um sofá de dois lugares. Pergunto a “Seu” Lair se não há filtro d’água. Antes havia, sim, mas um morador (por pura maldade) teria jogado o objeto em uma das caixas d’águas, e, por isso, os funcionários preferiram não comprar um novo, pois têm medo de que alguém possa pôr algo dentro do filtro.
Onde mora, já que deve estar aqui tão cedo? “Moro pra lá da Cidade Administrativa. Acordo, todo dia, às 4h30, deixo o café pronto para meus netos e venho trabalhar”. Além da história do filtro d’água, “seu” Lair me conta que, antigamente, era comum os funcionários ganharem uma caixinha de Natal, que também foi vandalizada, e, por isso, a síndica proibiu o “presente”.
Já “seu” Osvaldo não é tanto de falar, mas demonstra muito o que sente. Ele tem medo da síndica, pois ela “tem uma energia ruim”, uma “energia de maldade”. Fátima é uma mulher que vive em um dos apartamentos do último andar do condomínio Salerno. Está sempre de “cara fechada”, e tem o costume de soltar comentários preconceituosos sobre tudo: faz reclamações e acusações de que a família chinesa guarda “muamba” em um dos apartamentos e escreve uma carta sobre bons costumes, na qual grifa “família tradicional”, antes de pôr debaixo da porta do meu apartamento, logo em minha primeira semana ali.
Do outro mundo
Enquanto uns têm de zelar por vidas, existe a outra face da profissão, daqueles que olham pelos que já se foram. Assim é a história de Edmundo José, que, hoje aposentado, trabalhou em cemitérios de Belo Horizonte. “Medo de morto, a gente não tem, não. Tem que ter medo é de ser vivo”, diz Zezé, ao confessar seu pavor pelos escorpiões que assombravam o Cemitério do Bonfim.
“Para você se acostumar com o ambiente, é meio custoso”. Os olhos de Edmundo já viram de tudo. Durante a conversa, ele diz ter presenciado uma briga entre viúva e amante, para que se despedisse do finado infiel. Por tratar-se de lugar aberto ao público, os cemitérios não exigiam revista, sequer identificação, o que dificultava o trabalho de Zezé. “Conflitos em velórios são mais comuns do que se imagina”, conta ele, que já precisou ficar de olho aberto durante enterros de chefes do tráfico – ou de aspirantes.
Edmundo já presenciou a morte no cemitério, mas não da forma tradicional. Um garoto foi assassinado durante o velório de um amigo, ambos envolvidos em uma vida criminosa. Saiu de casa para consolar os entes queridos, mas não imaginava que, por ironia da vida – ou, talvez, da morte – seus entes queridos é que precisariam de consolo ao final do dia.
Por falar no fim do dia, antigamente, os cemitérios eram 24 horas. Como em um posto de conveniência, as pessoas entravam e saíam do ambiente para se despedir dos finados – e outras coisas mais. Zezé conta que, durante as madrugadas, rondas eram necessárias, para verificar se tudo estava em ordem, já que, muitas vezes, encontrou seres humanos vivos infringindo as regras, como de costume:. casais satisfaziam as vontades, religiosos praticavam suas crenças e pessoas usavam entorpecentes. Tudo flagrado pelos olhos vivos de Edmundo. “Sou curioso, e ia atrás, para ver as coisas. Já cheguei a assistir a 35 sepultamentos em um dia”.
Apesar de muito anos como vigilante de cemitérios, o que parece ter balançado o lado humano de Zezé foi sua passagem por hospitais. Ali, já viu todo tipo de doença, acidente e dificuldade. E prestou os primeiros socorros aos mais necessitados. É de notório conhecimento que hospitais públicos, no Brasil, exigem coragem no currículo para quem se aventura a trabalhar. Edmundo foi orientado a prestar atendimento, pôr em cadeiras de rodas e dirigir pacientes ao centro médico, na falta de enfermeiros. Sua passagem pelo ambiente hospitalar o fez compreender que o medo de fatalidades, na verdade, se encontra ali, e não nos cemitérios.
Assim como nos hospitais, Edmundo teve que prestar primeiros socorros no Parque das Mangabeiras, onde também trabalhou. Ali, porém, não socorria pessoas, mas a mãe natureza. Durante a temporada de ventos de alta velocidade, aumentavam as chances de queimadas na Serra do Curral. Quando o fogo começou a tomar conta do parque, a instrução era: feche as portas e combata o incêndio. Um pouco inusitado pensar que porteiros desempenham o papel de brigadistas, enquanto os profissionais do assunto não chegavam ao local.
Nem sempre, contudo, sua carreira viveu a dualidade entre vida e morte. Apesar de ter entrado na profissão com apenas 18 anos, Edmundo começou como zelador de agências bancárias. Nos bancos, o clima era outro, por se tratar de local privado. Os conflitos eram raros. Zezé nunca precisou usar seu poder contra ninguém. Aliás, foi no banco que percebeu como a hierarquia pode ser ignorada, e o respeito, deixado de lado. “A autoridade não aceita ser revistada ou identificada”, conta, ao relembrar que já ouviu a clássica frase “Com quem você acha que está falando?” Ali, porém, ele sabia tudo, “até quem ganhava mais ou bem menos”.
Zelando memórias
Por trás de um simples “boa tarde, senhorita”, existem diversas histórias. A vida de um porteiro, afinal, é uma verdadeira colcha de retalhos, feita de “causos” lindos –
ou nem tanto – de diversos lugares e pessoas diferentes.
Há quem zele por vidas. Há quem zele por mortos. E há que zele por riquezas.
Lindiano Bandeira de Lima, de 47 anos, é porteiro, há dois anos, no banco Santander da avenida João Pinheiro, nº 500, “‘pertim’ da Praça da Liberdade, bem no coração do Centro”, conforme ele próprio diz, ao descrever sua função como “controlador de acesso”.
Eu o conheço há um bom tempo, e sei que se trata de pessoa muito alegre, educada, que ama fazer as pessoas se sentirem bem e felizes. Seu ambiente de trabalho, porém, é peculiar e interessante, pois ele fica “no administrativo”. “Para os executivos e gerentes do banco, é como se eu e minha colega de trabalho fossemos invisíveis”, diz, ao destacar que, de 15 em 15 dias, é feita uma festa na agência, com bolos, salgados, refrigerantes e doces. “Nunca somos convidados a participar desse momento: Eles dão cestas básicas ou de final do ano para os funcionários. Muitas vezes, nem um ‘Feliz Natal’ nós ganhamos”.
Lindiano também está ali como segurança, e passa por situações bem difíceis. Muitas pessoas chegam ao administrativo e querem entrar sem crachá do banco, ou outro tipo de identificação, e ele precisa barrar a entrada. Certo dia, um diretor chegou “empurrando” a porta, sem se identificar, e logo foi barrado. “Fui advertido porque não deixei o diretor entrar. Mas como eu iria deixar, sendo que não sabia quem era ele? Este é meu serviço! Qualquer um que chegar e falar que é diretor eu vou deixar entrar?”, pergunta.
Além da função de “proteger” a segurança das pessoas que passam por lá no dia a dia, Lindiano ficou responsável por outras funções: “Minha colega Rafaela era secretária, mas foi mandada embora. Fiquei como porteiro, com todas as demandas de documentos, entrega, recepção etc.. Atendo, recebo pessoas, encomendas e problemas”.
Ser porteiro, de certa forma, é uma armadilha para os mais novos, na visão de Lindiano, pois não tem muita coisa para fazer, além de abrir a porta para as pessoas. “Dá uma desesperança, pois você não cresce, não vai assumir um novo cargo. Mas tem gente que fica ali 20 anos, trabalhando assim, justamente, por não ser tão pesado. A sensação é ruim, dá a impressão de que você não existe. Muitas pessoas passam e nem cumprimentam, nem olham na sua cara. Dou bom dia e não há resposta” conta, ao sublinhar, também, o lado bom de tudo: “Não há liderança exigindo muita coisa, e ficamos mais livres. Basta seguir com ética e responsabilidade, para, então, concluir nosso serviço de modo correto”.




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