Vida nas Ruas
- 20 de jun. de 2023
- 4 min de leitura
Como é o mundo dos ambulantes que trabalham em grandes eventos?
Viramundo procurou tais profissionais para conhecer seu dia a dia e suas
trajetórias
Por Adriano, Carloz Zambon,
Daniel Henrique, Gabriel Queiroz, Rafael Palheiros,
Keylla e Bárbara Veloso

Ambulante comercializa bebidas em jogo do Cruzeiro (Foto: Viramundo)
Sábado, 27 de maio. Vou a um show no Parque Municipal, que fica na avenida
Afonso Pena, no Centro de Belo Horizonte. Ao chegar lá, me deparo com um
homem negro, ao lado de seu Food Truck, que aparenta ter entre 45 e 50 anos,
além de enorme sorriso.
Maurício, mais conhecido como “Lélé”, é natural de Oliveira (MG), e vende
salgados na capital mineira. Após ter perdido a mãe, aos 16 anos, foi morar
com a tia em Belo Horizonte, e começou a trabalhar junto a ela, que fazia
salgados e os vendia pelas ruas da cidade e em eventos.
Desde então, tira do Food Truck seu ganha-pão, para sustentar o filho único.
Maurício concentra o trabalho em jogos e eventos realizados no Mineirão, onde
sempre tem a maior renda, mas também aparece em outros locais, para além
da região do estádio.
Enquanto me conta o resumo de sua vida, ele prepara um salgado.
Experimento e compreendo por que seu empreendimento, apelidado de “Lé
Lanches”, faz tanto sucesso. O petisco é bem temperado e recheado, e eu o
degusto com uma bela lata de refrigerante. Já é perceptível a longa fila que se
forma ao redor de seu carro. Despeço-me do simpático homem e sigo a minha
parada principal: o show que aconteceria, mais tarde, dentro do Parque.
Dia de jogo
Domingo, 28 de maio. No Mineirão, tudo pronto para o clássico interestadual
entre Atlético e Palmeiras. Ali, entrevistamos Raquel Costa Silva, senhora de
57 anos, que vem de Contagem para trabalhar em dias de jogos.
Ela começou no ofício ainda jovem, com o pai, durante os jogos de futebol.
Como não tinham condições de ir às partidas, e, à época, já mexiam com
comida, foi uma forma de estar próxima à atmosfera dos campos. Raquel não
gostava e nem acompanhava futebol, mas, hoje, é apaixonada pelo esporte.
“Também passo um pouco dessa paixão aos seus filhos, que me ajudam em
alguns jogos”, conta.
Em dia de trabalho, a correria é boa! De acordo com ela, é preciso organizar as
coisas e chegar bem cedo ao entorno do estádio, para pegar um bom lugar. Em
jogos maiores, Raquel sempre pede a ajuda dos dois filhos, pois a correria é
muito grande, assim como o número de pessoas. Normalmente, vai trabalhar
apenas com a filha, e chega em casa em torno de 2 da manhã.
E quais as maiores dificuldades enfrentadas em dias de jogos? Com certeza,
diz, a falta de educação de alguns torcedores e daqueles que não vão para
curtir os jogos. Ela já passou por muitos perrengues, devido a brigas de
torcidas organizadas próximo à barraquinha, ou, até mesmo, a torcedores
bêbados, que passam do limite. “São casos à parte. No geral, gostamos muito
do que fazemos, ainda mais por conseguirmos estar perto do que amamos”,
destaca Raquel.
A vendedora trabalha em todos os jogos no Mineirão. Contudo, recentemente,
sofreu com pequena crise, sem poder trabalhar, devido ao problema do
Cruzeiro com a Minas Arena. Ela também já pensa num futuro mais escasso, já
que a arena do Atlético será inaugurada, e o time não jogará mais no Gigante
da Pampulha. Por isso é que sempre aproveita os dias de jogos. “Entregamos
nosso melhor em todas as ocasiões, com muito amor e dedicação”, completa.
Após os relatos de Maurício e Raquel, ficou clara a diferença de
comportamento dos vendedores de rua em eventos musicais ou jogos de
futebol. As emoções são bastante alteradas, afinal, principalmente, se o time
para o qual a pessoa torce perde a partida… A diferença é escandalosa!
Rotina
Três dias depois, Viramundo volta ao Mineirão, desta vez, pela Copa do Brasil:
Cruzeiro X Grêmio. Para Hilton, que trabalha como ambulante desde 1994, a
família vê com orgulho seu trabalho, mesmo que ele precise ficar muito tempo
fora de casa. Afinal, trata-se de sua fonte principal de renda, e é dali que tira o
sustento para sua família.
Ele fica nas ruas até acabar o tumultuado trânsito pós-jogo: “Tenho que esperar
pelo menos 40 minutos tudo desafogar. Aí, arrumo minhas coisas e vou para
casa, onde, normalmente, chego três horas após o término do jogo”.

Hilton trabalha há 29 anos como ambulante em eventos (Foto: Viramundo)
Também nos arredores do Mineirão, trabalha Geraldo, o vendedor ambulante
de bebidas, Geraldo, de 52 anos. A maior dificuldade da profissão, segundo
ele, está no cansaço e na correria, pois muitas pessoas costumam comprar ao
mesmo tempo. Até que o jogo comece, e os torcedores entrem no estádio, o
movimento é muito grande, e várias pessoas resolvem fazer pedidos
simultâneos. “O cansaço bate bastante no pós-jogo, quando o movimento
diminui. É que a gente fica o tempo todo em pé”, conta.
Um dia antes do jogo, geralmente, Geraldo deixa bebidas no freezer. Na data
da partida, bem cedinho, coloca tudo em caixas com gelo, almoça e pega a
caminhonete, para pôr as coisas de que precisa para trabalhar. Em seguida,
procura um local para deixar o carro e vai levando as caixas para um local que
sempre fica, próximo da Abrahão Caram. De lá em diante, o movimento
começa e vai até de madrugada.
Sobre a frequência nos jogos, Geraldo alega que, geralmente, vem a todos.
Como é antigo nos arredores do estádio, já conhece alguns torcedores, tanto
do Cruzeiro, quanto do Atlético, que vão com mais frequência aos jogos.
Normalmente, Geraldo fica nos arredores do Mineirão entre 8 e 12 horas, a
depender do jogo. “Chego ao entorno do estádio às 15h30, quando os jogos
são às 19h, 20h ou 21h30, pois tenho que preparar as caixas, o gelo, e ajeitar
as bebidas; Por volta de 16h, começa o movimento, que dura até o pós-jogo.
Tem dias que saio daqui 01h da manhã”, disse.
Para os ambulantes, o dia começa de manhã e termina de madrugada. O
trabalho de tais profissionais é exaustivo: horas em pé, para tirar o sustento de
suas famílias, que, em alguns casos, até vão aos eventos ajudar devido à alta
demanda.




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